30.4.09

Rápida história da Ilustração no Brasil

São muitos os depoimentos em listas e comunidades de desabafos e reclamações sobre os problemas vividos no mercaod de ilustração. E olha que a um bom punhado de anos isso já acontece.

Eu cansei de ver gente por aí reclamar, chorar, criticar, combater, mas não compreender o todo.

Dificilmente nós temos a oportunidade de ver algum ilustrador, mesmo os já estabelecidos no mercado se perguntando: Porque tudo está assim?

Nós vemos todo mundo simplesmente pensando em se adaptar, mas ninguém questiona mais a fundo.

E qual é o problema disso?

O problema é que ao não questionarmos, não temos condições de decidirmos pelo nosso futuro.

Esse é o reflexo de décadas sem haver união, sem haver planejamento, sem haver preocupação com o futuro. E não tenham dúvidas que a continuidade dessa desunião ainda poderá trazer mais problemas no futuro.

Mas porque só hoje os problemas são tantos?

Precisamos compreender uma série de fatores históricos no Brasil.

No início do século XX a profissão de ilustrador foi importada, era tido como alta especialização e quem fazia isso ganhava muito bem, vivia muito e muito bem, mas devia ser meia dúzia no Brasil todo.

Muitos eram pintores, mas todos tinham um status, primeiro por ocupar uma função que foi importada, para um mercado também importado.

O Ilustrador só existe por causa da imprensa. E o ilustrador só pode viver a sua fase de ouro quando a imprensa era exclusivamente para as elites. Uma vez que sua profissão fica voltada para camadas mais populares, o dinheiro até pode existr, mas o glamour não.

Ser ilustrador no começo do século e praticamente durante toda a primeira metade do século XX era trabalhar para grã-fino, era trabalhador que servia as elites e por isso mesmo ganhava salário de profissional de elite.

Depois dos anos cinqüenta, vivemos fases marcantes no Brasil. Primeiro vieram as grande empresas americanas, depois as da Europa, com elas, vieram as agências de propaganda, com tudo isso os produtos que passaram a ser vendidos no Brasil começaram a precisar de um estímulo para serem vendidos. E esse estímulo foi, como ainda é, visual.

Essa foi a era de ouro dos ilustradores, havia uma demanda absurda por ilustração. Começaram a surgir os grandes nomes, os grandes mestres foram surgindo.

E isso perdurou até o final dos anos 70, ainda mais com o "milagre econômico", a economia crescia a olhos vistos, empregando todo mundo, criando uma demanda cada vez maior de consumo, demanda essa que era prontamente superada. E nesse ambiente o ilustrador não precisava de outra coisa que não fosse pensar em seu próprio umbigo., mesmo porque, por pior profissional que o ilustrador fosse, ele sempre consiguiria trabalho, uma vez que a oferta por mão de obra era maior do que a oferta de profissionais.

Nessa época vieram os grandes nomes que até hoje habitam o nosso imaginário ilustrativo, também foram começando a existir os ilustradores "Mandrakes", que sabiam truques do arco da velha e que guardavam seus segredos a sete chaves, como se fossem grandes segredos industriais.

Começou a haver uma concorrência mais acirrada, e toda vez que a concorrência aperta, sempre aparece um ou outro não tão bem intencionado. Veja você que ainda estamos nos referindo à década de 70.

O mercado foi virando um "cada um por si", fazendo aumentar o isolamento entre os ilustradores. Isso já era os anos 80, e dessa época herdamos o hábito de muitos ilustradores de gostar apenas de "mostrar" seus trabalhos e de falar sobre eles de maneira mais "conceitual", sem ser muito focado em dizer "eu fiz com guache misturado com detergente". Os ilustradores ainda hoje preferem filosofar do que mostrar como é que funciona a coisa na chincha, da mesma maneira como prefere olhar o mercado como se fosse um ser quase autista.

Só que os anos oitenta sofreu um terrível revés econômico, foi chamada de "A década perdida", pois o Brasil simplesmente não cresceu economicamente nessa época.

Embora isso tivesse acontecido, os ilustradores ainda conseguiram respirar, e respirar muito bem durante os anos oitenta, pois viviam ainda no embalo dos anos 70 e também puderam contar com as novidades do mercado, que mantiveram a demanda de ilustrações em alta.

O problema começou com os anos 90, com o surgimento do DTP, o Macintosh, o computador sendo usado para montar revista, anúncio, livro, o começo da ilustração e a internet. Tudo ficou pulverizado. Acreditou-se que o computador substituiria o ilustrador. Enquanto que antes do computador era preciso fazer a mesma ilustração várias vezes para montar uma campanha que servisse para anúncio de meia página, página inteira, página dupla. página simples de jornal, página dupla de jornal, outdoor, com o computador uma só ilustração já dava pra tudo.

Os estúdios foram fechando, muitos ilustradores viraram Diretores de Arte, mudaram de profissão e entrou um pessoal novo, muitos deles hoje em dia chamados mestres, e sem nenhuma orientação entraram no mercado, ganhando bem menos do que o pessoal que estava anteriormente no mercado, fazendo o fator "preço baixo" virar motivo para ganhar mercado. E esse comportamento perdura até hoje.

No universo do ilustrador aonde já havia a cultura do isolamento, de se esconder informações e da competição acirrada teve um ingrediente a mais: oferecer trabalho a preço de banana.

Só que os anos noventa também foi outra década perdida. No começo havia uma demanda de trabalho ainda boa, e no final da década a demanda havia caído mais da metade, com praticamente a mesma quantidade de ilustradores no mercado que havia no início da década

E estamos nós em pleno início de século XXI vivendo o revés de uma profissão que já foi símbolo de status. Estamos vivendo a penúria de uma categoria que foi cada vez mais se tornando mais e mais egoísta. Só que, depois da internet, se no começo do século a quantidade de ilustradores no mercado era X, atualmente a quantidade de profissionais se oferecende deve ser pelo menos 5X.

Agora a culpa é de quem está tentando começar?

Não.

A culpa é dos caras que se metem a bambambam com trinta e tantos anos de carreira, e quanto mais carreira, mais responsável é pois viveu todas as fases da profissão e somente contribuiu para hoje estarmos no buraco em que nos encontramos.

Agora, cabe a nós tentar limpar a sujeira dos bambambans da ilustração.

O mercado vai precisar de cérebro, de união e de paciência. Temos pelo menos vinte anos de defasagem para corremos atrás. E praticamente já perdemos dez anos tentando fazer alguma coisa e não conseguindo.

Mas não adianta desanimar, porque nós só temos um caminho para percorrer: pra cima.

Precisamos estar unidos, sermos mais conscientes, muito mais do que os outros, pois a economia também não nos ajuda, o mercado não está nos ajudando; a tecnologia deveria nos ajudar, mas nós a utilizamos contra nós mesmos.

Podemos perceber que até os nossos clientes atualmente nos forçam para baixo em preço, qualidade, prazo.

Os mercados estão indo de mal a pior.

Quadrinhos nunca teve.
Editorial tá mal demais.
Propaganda já foi melhor.
Televisão, é uma incógnita.
Internet já nasceu morto.

Isso sem contar no pessoal que quer se sustentar com ilustração, que precisa estar no mercado como profissional e que sofre uma barbaridade para conseguir o seu lugar ao sol.

E tem gente que ainda insiste em continuar isolado. Insiste em esconder o ouro, insiste em aproveitar a ingenuidade do outro, a ignorância do outro, insiste em pregar que a união é impossível entre nós.

O futuro está em nossas mãos, o futuro se for bom ou se vai enterrar nossa profissão de vez vai depender de nosso passo ainda hoje.

Por isso precisamos continuar. E estamos ainda deixando de continuar.

Para que a profissão de ilustrador faça história e não precise ficar somente na história.

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