17.4.09

Ilustradores/designers

Não sei se vocês já perceberam, mas a alguns anos temos visto muitos ilustradores/designers no mercado vendendo o diferencial de que não são nem ilustradores e nem designers, mas são exatamente "ilustradores/designers".

Algumas pessoas tiveram um a oportunidade de falar a respeito do mercado de ilustração, dizendo que o mercado morreu, o ilustrador morreu, que o futuro é ser bi combustível, flex, ilustrador/designer.

Eu, pelo menos acho uma declaração para lá de infeliz.

Olha, eu já a algum tempo venho notando as coisas de algumas pessoas que se vendem no mercado dessa maneira.

Quem analisar um pouco a trajetória do pessoal que vende esse peixe irá perceber que eles são caras antenados nas tendências, e que procuram aproveitá-las da melhor forma possível.

Ou seja, eles não são exatamente pessoas que brigam para que o mercado seja assim ou assado, ele simplesmente percebem o correnteza e seguem rio abaixo.

Pois existem dois tipos de pessoa, aquela que interage com os sistema, contribuindo para que ele se modifique, regenere ou degenere, e aquele que apenas vê como as coisa são e aproveitam o mundo, como se fosse índios extrativistas.

Na verdade, não precisa ser especialista para perceber que a profissão de ilustrador está hoje em dia na marca do pênalti. Mas a questão vai mais fundo do que simplesmente dizer de peito estufado que a profissão já morreu. O problema ao meu ver é outro.

Eu vou explicar dando um exemplo comparativo:

Vamos supor que você tenha algum inimigo que queira te destruir, e este inimigo é um cara bastante influente a ponto de ficar no seu encalço, aí ele descobre que você tem várias dívidas que simplesmente não foram executadas.

Como o cara é influente, ele consegue com alguma negociação comprar as duplicatas da sua dívida e manda executar.

Você não tem dinheiro para pagar todas aquelas dívidas e muito provavelmente irá passar por muitos maus bocados, indo a bancarrota e tendo que começar do zero se quiser um dia, ter a chance de se ver em uma situação favorável.

Só que a primeira coisa que vem na sua cabeça é o desespero, como ter forças para dar a volta por cima? Como as pessoas irão lidar com você?

-Lá vai o fracassado! Lá vai o incapaz – pensa você.

Só de pensar nas humilhações que poderá passar, na vergonha que terá de enfrentar, ainda mais ao ver seu arqui-inimigo tripudiando em cima do que restou de você, a vontade que você tem é de sumir, você tem vontade de nunca ter sequer existido.

Isso mesmo, suicídio! Até nisso você pensa.

Aí, você se lembra de um amigo distante que já passou por situações financeiras muito difíceis, mas que deu a volta por cima e hoje tem uma vida relativamente confortável.

Então você procura esse amigo distante e resolve contar toda a sua história para pedir algum conselho, ouvir alguma coisa que possa te elevar o moral.

Só que o seu amigo responde:

Sinceramente, se eu fosse você e estivesse no seu lugar, eu pegaria um trezoitão e metia uma bala nos cornos!

--xxx--

É assim que eu vejo esse tipo de declaração, ao invés do cara tentar puxar para uma solução, uma saída, o cara fala: nós vamos pro buraco mesmo, eu já comprei o meu caixão e você?

O problema é que uma declaração como esta pode ser responsável por inúmeras desistências na profissão de gente que queira ser ilustrador. Pelo menos quando o assunto é desistência, eu preferia que fosse mais pela pessoa perceber que não tema finidade com a profissão. Muito talento poderá virar pasteleiro, vendedor de calçado, açougueiro ou caixa de banco depois de ler um texto de algum designer/ilustrador da moda que diz que o mundo vai acabar em CD da Ivete Sangalo pirateado na China.

Até outro dia tinha gente falando em se fazer uma campanha de valorização da profissão, coisa que eu aliás concordo em gênero, número e grau.

Como querer valorizar uma coisa que um diz que vai morrer, outro diz que não tem futuro e outro diz que acabou?

Ninguém valoriza algo que está com os dias contados.

Você já viu alguém investir dinheiro numa empresa que está à beira da falência pensando no retorno financeiro?

Alguém já viu a família de um senhor que está entubado com câncer em estado terminal à beira da morte fazendo planos "para onde nós vamos levar o vovô passear no Reveillon?"

Eu acredito na ilustração, eu acredito na solução. Eu, pelo menos eu, mesmo se estiver sozinho no mundo, sei que a ilustração tem valor, agrega valor é útil, de várias formas, ajuda a vender um produto e uma idéia. No mundo todo é assim, engraçado que no Brasil, e só no Brasil a ilustração está à beira da morte.

Será que o mundo todo está errado e nós estamos certos?

Será que no Brasil em se plantando, tudo afunda?

Me choca ver, por exemplo declarações de designers/ilustradores dizendo que uma ilustração precisa ser boa para "maquiar" um design ruim. E sem perceber a pessoas acaba inconsciente dizendo que se o design for bom, a ilustração pode ser uma m$%#@!

Pra piorar a situação, hoje em dia tem muito bambambam acreditando que a coisa é por aí mesmo.

Eu sinceramente não vejo fundamento nas argumentações de pessoas, sendo que algumas nem são designer/ilustradores, mas ilustradores, cartunistas, pessoas que se julgam de sucesso e que vendem o apocalipse; embora reconheça que eles aproveitam bem o momento para ter seu espaço, mas a um custo funesto a longo prazo. Por acaso somente hoje em dia um design precisa ser bom para vender? Será que nunca foi preciso saber fazer direção de arte bem feita para ser diretor de arte? Que nunca foi preciso fazer design bem feito para ser designer?

Outra coisa, quer dizer que antigamente se usava ilustração para "disfarçar" o péssimo design das coisas?

Eu conheço algumas dúzias de grandes mestres da Direção de Arte, da propaganda, do design, que vão morrer de infarto quando lerem esse tipo de coisa. Muita gente que teve tantos prêmios internacionais e dominavam tão bem suas artes, conhecem tanto a teoria quanto a prática, muito mais do que o pessoal de hoje em dia, que não sabe a diferença entre Rough e Layout; e que sempre adoraram trabalhar com ilustração. Gente que são verdadeiras bibliotecas ambulantes, mestres com que eu aprendi a utilidade daquilo que eu faço e que nenhum deles, nunca na minha vida, eu ouvi falar tamanha bobagem, se bobear, muitos inclusive que devem ter dado aula para esses designers/ilustradores, ou deram aula para os professores deles.

Estamos fritos, desculpem-me.

Estamos fritos ao dar ouvidos para pessoas que não percebem que as regras que determinam se uma coisa é visualmente agradável ou não, se vai atrair, repelir, chamar a atenção, provocar, passar tranqüilidade, agitação, força, confusão, rapidez, plenitude, paz, anarquia e as mais diversas emoções e sensações são universais e atemporais.

Ninguém vai descobrir uma nova regra, é como se algum dia algum cientista dissesse que a lei da gravidade está com os dias contados.

O que muda com o tempo é a forma de as utilizar, de manipular, aumentando o domínio que temos sobre as ferramentas que manipulam essas leis.

Uma imagem que foi feita no século XIV e que na época causava impacto pela beleza, vai causar o mesmo impacto enquanto ela existir. Não importa quanto tempo leve, pois ela segue, sempre seguiu e sempre seguirá regras universais e atemporais para causar o impacto que causa.

Uma coisa eu digo, se a ilustração um dia deixar de existir, é por culpa dos ilustradores que assim acreditaram, que perderam as suas raízes, a sua lógica e não fizeram com que a ilustração deles mantivesse o valor e agregasse as novas necessidades. E deixaram pra trás os motivos que a fizeram ser uma arte, e uma arte com utilidade.

Se um dia o ilustrador morrer, é porque ouviu e acreditou naquilo que não devia.

É impressionante como um ilustrador, ao ver a oportunidade de falar algo na imprensa sempre se reveste da túnica do mensageiro do apocalipse.

Faz tempo que eu não vejo um ilustrador valorizar sua arte, valorizar sua profissão. Faz tempo que eu não vejo um ilustrador demonstrar publicamente que acredita naquilo que faz.

Como então querer que os outros te reconheçam, te valorizem, se ele mesmo é incapaz de fazer isso consigo mesmo?

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