30.9.10

A Mosca

Eu sou a mosca que pouso em sua sopa
Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar
Eu sou a mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto a zumbizar...

E não adianta vir me detetizar
Pois nem o seu DDT pode assim me exterminar
Porque você mata uma e vem outra em meu lugar...

Tá vendo amiguinho?

O que te desiquilibra não são minhas palavras, mas o fato é que minhas palavras estão recheadas de verdades que sua consciência vive te apontando, mas você ignora.

Minhas palavras são apenas o eco daquilo que você não pode esconder. E vive querendo esconder.

O tempo passa, a verdade vai aparecendo, e o pior, vai se destacando.

Eu não preciso fazer nada para que a realidade desponte, não vou perder meu tempo.

Mas saiba, eu sei quem você é.

Não sou seu inimigo.

Não tenho raiva de você.

Eu apenas sinto pena, de tanto rancor, tanto preconceito, tanto orgulho e vaidade que existe em seu coração.

Você fica doente cada vez que corre o risco de ser descoberto em público na sua verdadeira essência, por isso não consegue se controlar.

Seria muito mais útil para você conhecer sesu próprios defeitos para que, com força de vontade, você se aplique em transformá-los em qualidades.

Eu te perdôo, pois sei que eu também não sou perfeito. Eu tenho meus defeitos, são muitos e erro constantemente.

Mas procuro aprender com meus erros.

Até hoje eu não sei porque você é tão legal com todos, mas age sempre como se quisesse ser meu inimigo, meu maior inimigo.

Minha pessoa te incita inveja?

Minha presença te incomoda?

O fato de eu existir é motivo para sua infelicidade íntima?

Porque você quer tanto me destruir e destruir todas as coisas que eu construo com tanto afinco?

Eu sou, por acaso, algum câncer que precisa ser extirpado?

Eu sou, por acaso, algum animal selvagem?

Esse é o meu perfil?

Ou será que você enxerga em mim aquilo que você vive escondendo em você mesmo?

Eu não desejo o seu mal, mas isso não significa que eu vou começar a passar a mão em sua cabeça.

Eu não vejo em você uma ameaça a minha existência nem aos meus interesses, pois eles são sinceramente desprovidos de egoísmo.

Mas você não acredita em mim.

Não tem importância, eu não sou obrigado a provar nada para você.

Apenas aceite a minha personalidade como eu sou, da mesma maneira como eu aceito a sua.

Eu, sinceramente agradeço a Deus pela sua existência, pois toda tentativa que você faz para me prejudicar é uma prova para que eu saiba o que é realmente importante nessa vida, para que mesmo com pessoas que me odeiam, eu não envenene o meu coração.

Mesmo assim, minhas orações muitas vezes são endereçadas para você, pois deve ser muito sofrido ter o coração assim tão envenenado por sentimentos tão pouco nobres.

Mas eu tenho certeza que um dia tudo isso será passado, eu tenho certeza que um dia você será uma pessoa diferente. Um dia ainda haverá amor no seu coração.

E você então vai ver que eu nunca estive errado, nunca quis seu mal.

Eu não farei mal algum, mesmo quando você fizer coisas que permitam eu te atacar, eu te desmoralizar, eu não farei isso, pois eu não quero seu mal.

Você já deu inúmeras oportunidades para ser desmascarado, desmoralizado na frente das pessoas, mas eu nunca quis fazer nada de ruim para você, e não fiz.

Você ainda acha que manda nas pessoas, na consciência das pessoas, que a sua palavra é a última palavra, é a sentença final, mas não é.

Muitas pessoas olham para o seu comportamento com pena de seu ego, e apenas permitem que você se manifeste com toda sua imponência, todo seu preconceito, toda sua arrogância com dó. Você, na sua cegueira não percebe que todos estão vendo seus defeitos escancarados, acha que todos admiram seu peito inchado e seu coração vazio.

As pessoas percebem que quando você ataca alguém, falta em você respeito ao próximo, você é capaz de chafurdar na lama, não demonstra piedade de ninguém, em atitude típica de bárbaros.

Diz para mim que eu sempre acabo estragando tudo, mas quem acaba estragando tudo, afinal de contas?

Não vê que age exatamente da mesma maneira como você diz que as outras pessoas agem?

No entanto, eu não tenho raiva de você. Sei que você precisa de uma mão, de um amigo, pois eu sei que você não os tem.

Uma pessoa que age dessa maneira pode ser cercada de admiradores, mas eu espero que um dia você perceba que a maioria deles apenas esperam um momento de descuido seu para lhe aplicar um golpe pelas costas.

Porque você faz por merecer isso. Mas ainda é tempo de modificar isso tudo.

Se desarme.

Eu não estou aqui para te fazer mal algum.

Eu estou aqui para cumprir meu papel.

Papel esse que você não compreende.

Eu sei disso, e sei que é justamente pelo fato de você não compreender que você sempre procura me fazer tanto mal.

Mas um dia você irá despertar.

E sua consciência será sua verdadeira inimiga, e não eu.

Quando isso acontecer, provavelmente eu nada ou quase nada poderei fazer. Mas tenha certeza que se eu puder fazer alguma coisa, jamais será um golpe de misericórdia em você.

Fica com Deus.

23.9.10

Ensaio sobre o Sistema de Projetos Colaborativos

Nos últimos dias andaram pululando em minha caixa postal de pessoas discutindo, reclamando e denunciando concursos ou ações ditas “colaborativas”, a freqüência com que novos empreendimentos, principalmente pelo fato de que empresas grandes do mercado de comunicação começam a lançar mão desse recurso, me fizeram voltar atenção para esse tema especificamente.

Existem muitas discussões à respeito desse sistema, muita opinião a favor e contra. No entanto é difícil a gente ver uma análise sobre esse sistema para que a gente possa compreender com maior clareza e para que a gente possa ter um posicionamento antes mesmo de apaixonado, mas esclarecido, com algum embasamento.

O problema maior, penso eu, está no sistema em que a humanidade desse planetinha minúsculo adotou a séculos para pautar o seu modo de vida que é o sistema capitalista.

O capitalismo existe desde que o mundo é mundo, desde a época em que os homens viviam nas cavernas e procuraram um jeito que fosse mais eficaz para a convivência social sem os problemas decorrentes do escambo.

Acontece que de lá pra cá muitos pensadores apareceram no mundo, muito se tentou aplicar para tornar o capitalismo menos ruim ou até mesmo para substituí-lo, no entanto todas as tentativas fracassaram.

Mesmo assim, devemos dar o braço a torcer que foi graças as filosofias socialista, comunistas, anarquistas, social-democráticas e liberais o capitalismo atual é menos ruim do que ele já foi um dia, embora esteja longe de chegar num ponto de equilíbrio.

O problema é que, por mais que os sistemas tenham evoluído, acrescidos de princípios éticos e morais, qualquer pessoa que compreende que nesse sistema o mais importante é o dinheiro, não importa o que se faça para que cheguemos ao vil metal, desde que tenhamos dinheiro em nossas mãos.

Justamente as pessoas que focam o dinheiro até hoje são aplaudidos pela sociedade como pessoas de sucesso, se tornam modelos e exemplos a serem seguidos.

Em meio a essa praticidade que o pensamento capitalista puro pode trazer as pessoas, também existe uma quantidade muito grande de líderes bem sucedidos que perceberam que doutrinas sociais se tornam armas importante para fazer com que as massas percam o interesse em lutar com tanto afinco pelo dinheiro, e assim diminuem o acirramento na concorrência e facilitam o trabalho daqueles que não abrem mão do dinheiro a qualquer custo.

A questão é que nem todo mundo tem esse modo de pensar, aonde o que vale é fazer o outro de bobo, mas vivemos num mundo aonde pessoas declaradamente capitalistas se misturam com pseudo-socialistas e socialistas idealistas.

No final das contas o que acaba mandando ainda é o dinheiro e o cara cujo objetivo é apenas ganhar dinheiro acaba saindo em vantagem. Não estou dizendo com isso que o fato de se ganhar dinheiro faz de uma pessoa feliz, satisfeita ou que ela um dia possa vir a usufruir de todas as benesses que o dinheiro ganho pode proporcionar.

Compreendido esse introdução, vamos procurar compreender como uma empresa funciona.

Basicamente, sem que a gente fique especificando do que é uma empresa, podemos dizer que toda empresa tem alguns mecanismo essenciais para que existe e produza:
Compra - é a parte responsável por adquirir matéria prima e estrutura necessária para a produção
Diretoria – é a parte da empresa responsável pelo direcionamento e planejamento do que a empresa será, fará e se posicionará no mercado
Administração – é a parte que organiza o funcionamento da empresa
Produção – é a parte da empresa capaz de fazer o produto/serviço que é o objetivo da empresa
Venda – é a parte da empresa responsável por fazer com que o produto/serviço chegue até o seu público

Uma empresa tem como sua principal fonte de renda, a venda de seus produtos ou serviços. No entanto, existe atualmente outra fonte de renda para uma empresa que é através de venda de espaço publicitário. Isso existe para empresas que podem ter uma presença tão ativa no mercado que seja interessante para outras empresas ter seu nome vinculado a ela e utilizarem um espaço da empresa para mostrar o seu próprio produto ou serviço.

Hoje em dia também existe outra fonte de renda de uma empresa, que é através do licenciamento, aonde a empresa permite o uso da imagem de sua empresa para que outras empresas possam ganhar dinheiro em troca do pagamento de uma porcentagem do ganho obtido com o uso de sua imagem.

No entanto, muitos administradores descobriram outras maneiras de fazer com que o dinheiro que uma empresa lucre seja maior, uma vez que a empresa passe por algum processo de crise criativa, ou chegue no auge da sua capacidade de lucrar que é justamente diminuindo os gastos.

Esse princípio não é necessariamente errado ou antiético, uma vez que ele possa corrigir abusos como desperdício de dinheiro ou falta de foco de uma empresa com atividades de alto custo e pouco retorno financeiro.

Acontece que esse princípio básico já foi a muito tempo usado nas empresas e os seus administradores perceberam que também dá para aumentar o lucro das empresas contando outros gastos que não são necessariamente supérfluos.

Como seria isso?

Cortando gasto com os fornecedores, adquirindo matéria prima mais barata, mesmo que ela seja de qualidade inferior (coisa que fatalmente irá acontecer); fechando contrato de fornecimento em quantidade, diminuindo o valor unitário do material comprado,mas ainda oferecendo pelo volume negociado uma boa vantagem para o fornecedor. Também é possível demitir funcionários mais velho e com melhor salário e contratar funcionários novos por menos da metade do salário.

A questão nesse caso é que a primeira opção é mais elástica que as demais e mais viável principalmente para empresas cuja matéria prima não seja adquirida em quantidade.

Ilustradores são basicamente fornecedores de matéria prima para empresas de comunicação e eles são justamente um dos objetos dessa política de aumento de lucratividade das empresas através da diminuição dos custos..

Isso somado ao aumento vertiginoso de novos ilustradores no mercado, faz com que a situação seja da forma como já conhecemos.

Acontece que existe um limite saudável de diminuição de valores pagos por uma matéria prima e a aquisição de matéria prima com qualidade mínima capaz de oferecer alguma vantagem na hora do produto de uma empresa entrar no mercado.

Chega-se em um momento em que o valor baixo compromete e muito a qualidade final do produto oferecido que o produto perde seu atrativo para o consumidor e as suas vendas despencam. Aí aquilo que era lucro vira um prejuízo aonde será impossível reverter a situação pois os custo já foram cortados ao máximo e não existe nenhum investimento criativo capaz de fazer surgir alguma novidade no produto capaz de chamar a atenção do consumidor para aquele produto.

Fatalmente, esse processo terá como desfecho a falência da empresa.

Para evitar que o sistema adotado acabe com a falência da empresa, ou para que novas empresas possam ter condições de entrar no mercado e sobreviver com menos capacidade de retorno financeiro de seu produto/serviço, alguns administradores mais atentos começaram a lançar mão de princípios que fazem parte de filosofias socialistas, comunistas e anarquistas para se chegar a uma solução viável.

É aí que entra o sistema de projetos colaborativos: cria-se apenas para os fornecedores de matéria prima a possibilidade dos mesmos utilizarem o produto/serviço da empresa como escada profissional, permitindo a visibilidade da matéria prima do fornecedor.

Dessa maneira, o fornecedor irá fazer questão de oferecer uma matéria prima de qualidade, já que é de interesse dele fazer com que as pessoas saibam que a sua matéria prima é de qualidade, a custo zero.

Isso faz com que caiam as últimas barreiras possíveis do sistema, a empresa consegue diminuir ainda mais o seu custo e existe a possibilidade do seu produto voltar a ter a mesma qualidade que tinha antes e reconquistar o seu espaço perdido no mercado.

Para a empresa em questão, essa é a última barreira possível, e os administradores talvez não tenham percebido que abaixo desse ponto ninguém mais consegue chegar, mas a elas ainda restará mais algum tempo de sobrevivência, e essas mesmas empresas se apegam aos seus projetos colaborativos com unhas e dentes, pois sabem que é a última tábua a boiar no náufrago mercado lógico causado pelas suas más escolhas administrativas ao longo dos anos, só que eu aposto com quem quiser que essa tábua ainda não será a tábua da salvação.

Agora, o que o fornecedor ganha com esse sistema colaborativo?

Bem... a princípio o fornecedor ganharia uma espécie de espaço publicitário...

Eu sei que muita gente ao chegar nesse ponto do texto se pergunta: e o que tem de errado nisso?

Eu respondo para você: o que tem de errado é outro princípio básico que rege a organizações das sociedades desde sempre e que eu ainda não mencionei: O Estado de Direito.

O conceito básico do estado de direito é que para todo direito existe um dever. Num estado baseado em padrões médios de civilidade as pessoas recebem benefícios em troca de obrigações, e tanto um quanto outro são equivalentes. Ter o direito a algum benefício só existe quando o seu dever é de igual teor.

No Brasil esse conceito de Estado de Direito é muito mal compreendido ainda nos dias de hoje. Vemos pessoas que nunca contribuíram com um único imposto terem direito a programas sociais, enquanto outras pessoas pagam uma carga tributária absurda em troca de coisa alguma.

Vivemos num país aonde o direito virou vantagem e o dever virou prejuízo. Vivemos num Estado de Vantagem.

Por isso mesmo acaba sendo muito difícil para cada um de nós compreendermos essa relação de direitos e deveres, essa relação de que cada coisa que eu faço tem que obrigatoriamente me trazer de volta um benefício de igual teor.

Agora eu volto a fazer a pergunta: O que o fornecedor ganha com um projeto colaborativo?

Propaganda de graça? Só se a empresa ceder um espaço de igual tamanho ao da imagem que o ilustrador fez para criar um anúncio seu.

Ah, mas o artista pode assinar a sua obra. Assinatura de obra não é propaganda, é apenas uma forma de identificar o autor, nada mais do que isso. Isso entra dentro do direito inerente ao autor de uma obra ter sido o responsável pela obra, é o direito de um autor ser reconhecido pelo seu trabalho.

Uma propaganda pressupõe uma série de outras coisas, como estudo do público alvo e a confecção de uma peça capaz de atingir seu público alvo. É possível que com uma imagem que será utilizada para ilustrar uma matéria determinada se conseguir incluir elementos com objetividade suficiente para, ao mesmo tempo ilustrar a matéria e vender o artista? Eu divido...

E para estampar uma camiseta? Mas, entre os projetos colaborativos de estampa para camiseta existe uma premiação. Mas não existe qualquer contrapartida para os demais ilustradores.

Um sistema colaborativo seria justo se uma empresa de estampa chamasse UM ilustrador para fazer uma estampa e premiasse o trabalho do ilustrador.

Numa sociedade aonde existe um estado de direito TODO trabalho é recompensado, não somente os melhores trabalhos.

Agora, vamos fazer algumas suposições: Se o trabalho é colaborativo, então os fornecedores poderiam ter a sua contrapartida, ao invés do pagamento em dinheiro com algum benefício que fosse equivalente. A empresa que oferece o sistema colaborativo poderia, por exemplo se responsabilizar pelo pagamento das despesas de internet do seu fornecedor, ou oferecer gasolina por um mês para o seu fornecedor, Ou um mês de aluguel do seu estúdio pago pela empresa.

Enfim, uma mão lava a outra. O ilustrador colabora com o projeto da empresa e a empresa colabora com o projeto do ilustrador.

Agora, outra coisa que é muito curiosa é que o projeto só é colaborativo no que diz respeito ao fornecedor.

Se uma empresa adota o sistema de projetos colaborativos deve adotar o colaborativismo em 100% de sua empresa.

Ou seja: os funcionários trabalham em troca de divulgação, o contador trabalha em troca de divulgação, os espaços publicitários não devem ter custo, as demais matérias primas como tinta, papel etc. devem ser fornecidas de graça e, principalmente, o produto que a empresa realiza deve ser oferecido gratuitamente para todo mundo.

Agora, como uma Camiseteria quer me convencer a trabalhar de graça para ela se ela me cobra por uma camiseta sua? Como uma Trip vai me convencer a trabalhar de graça para ela se eu tiver que pagar para ter a Trip? Como uma Zupi vai querer que eu forneça meu trabalho de graça se ela cobra para eu ter a revista?

Aliás, essas empresas tem três formas de renda, conforme nós já citamos no início desse texto, e eu duvido que elas abram mão de suas rendas possíveis em nome do colaborativismo.

Portanto, eu me vejo obrigado, por tudo isso a chegar à conclusão de que o colaborativismo é um grande engodo, falsidade ideológica, golpe, tentativa de estelionato.

Cabe a cada um de nós porém, ter o direito de compreender na integra como é o sistema de projetos colaborativos e o dever de ensinar e divulgar a realidade para o maior número de colegas de profissão possível.

Eu somente aceitarei um sistema baseado em princípios socialistas ou anarquistas quando forem feitas por empresas que adotam esse sistema em todos os momentos e departamentos internos.

Caso contrário eu continuarei acreditando que a melhor contrapartida para um trabalho realizado é a remuneração.

17.9.10

Sobre união, regulamentação e tudo mais

Quando a gente fala de "LDA" é quase impossível não tratar também do assunto "regulamentação".

E quando a gente fala de regulamentação é difícil também não tocarmos no assunto "organização de classe".

Lógico que falando desse jeito parece que o tema é coisa de sindicalista, de trabalhadores que procuram se opor a patrões ou a um grupo de espertinhos que se aproveita de pobres operários para tirar vantagem.

Independente dessas visões pré-concebidas que temos, o assunto é profundo, delicado e tão importante quanto as duas outras características mencionadas.

É importante haver uma organização entre profissionais de ilustração? Eu diria que não é importante, é fundamental. É com muita tristeza que eu vejo um grande número de colegas que pensam que união e organização é coisa de gente maldosa, quem quer explorar a ingenuidade alheia. Como se um objeto por si só fosse a causa de uma mal, e não a utilização que se faz dele.

Seria como dizer que todo automóvel seria culpado pelos acidentes de trânsito e violência que existe no trânsito do país. O que faz com que o nosso trânsito seja violento, caótico e cheio de vítimas é o comportamento do cidadão, e não o carro.

Se todos os que dirigem automóveis no país hoje passassem a andar de barco, os problemas apenas seriam transferidos para a água, mas a confusão seria a mesma.

Isso significa que o mal não está em se ter um sindicato, uma associação de classe, um clube de profissionais, o problema está em cada um de nós.

O "mercado", isso é: a legislação e a interação que temos com ela, o relacionamento cliente/fornecedor, a formação profissional, a condução profissional, o relacionamento entre profissionais do meio, o modo de trabalho, o sistema comercial adotado e as perspectivas de futuro da profissão são frutos da capacidade que TODOS NÓS temos de interagir nesses pontos.

Se o "mercado" não é animador, é porque NÓS fizemos dele um mercado não muito animador. Se existe muita concorrência desleal, é porque NÓS não sabemos manter um concorrência ética. Se os valores cobrados são cada vez mais baixo, isso só acontece porque NÓS nos comportamos de maneira a fazer com que o mercado desvalorize o nosso trabalho (valorização aqui é relativo à grana, mesmo), se os clientes nos tratam como pessoas não tão profissionais como gostaríamos de ser tratados, é porque NÓS nos comportamos perante os nosso clientes, seja na hora do contato, no briefing, do orçamento, da execução ou do pós venda de maneira a fazer com que eles entendam que nós não somos tão profissionais assim; o mercado não se mostra com uma perspectiva de futuro tão boa, porque NÓS conduzimos a nossa profissão para um destino nebuloso.

O mercado é apenas o reflexo de nós mesmos. O mercado de ilustração é complicado? Pois precisamos ter a humildade de perceber que isso foi o melhor que cada um de nós conseguiu fazer com o seu mercado.

Humildade aliás, talvez seja a grande palavra, a palavra chave de tudo. Não temos na maioria das vezes humildade para admitir que poderíamos ser bem melhores do que somos, não temos humildade para admitir que o nosso trabalho poderia ser bem melhor do que é, não temos humildade para admitir que a maneira como trabalhamos poderia ser muito mais profissional, não temos humildade para admitir que cobramos muitas vezes uma bala por um trabalho que a gente faz nas coxas, sendo que a gente poderia trabalhar o tanto que justificasse o valor que nos será pago.

Provavelmente vai ter pelo menos uma dúzia de pessoas que irá ler esse meu texto e irá, como sempre se ofender, ou achar "O Flávio não queria dizer exatamente isso". Queria dizer sim. Tanto quis que é exatamente isso o que está escrito. Mas o problema é que muito de nós sequer tem humildade de ler e ao invés de se sentir ofendido "eu não faço trabalho nas coxas...", "eu sou bão!" "eu sou artista!" Falta humildade para admitir que estamos, na verdade indo para o buraco. E quem está fazendo com que a profissão vá para o buraco? Nós.

Se os valores são cada vez mais baixo, se trabalhar de graça em troca de divulgação está se tornando algo comum, se os clientes não dão importância para o nosso trabalho, se a gente não tem mais pra quem vender ilustração, isso só acontece porque NÓS estamos transformando ilustração num produto de baixo valor, de baixa qualidade, de baixa importância.

A culpa é NOSSA!

No meu ponto de vista, percebo que existem dois grandes entraves ao crescimento da profissão de ilustrador: a primeira eu já disse que é a falta de humildade. A outra é o excesso de sonho.

Ilustrador fulano de tal sempre sonhou trabalhar fazendo mangá, mas ninguém contrata fulano para fazer mangá. Então ele pega sua pastinha e sai por aí tentando convencer editores, publicitários e empresários que o que eles precisam é de mangá para resolver os seus problemas. Só que um ou outro acredita nisso e mesmo assim paga um dinheirinho que mal dá para tomar ônibus por um mês. Fulano, ao sair por aí viu lojas femininas que precisavam de quadros e murais com visual limpo e feminino, mas não precisa de mangá; viu uma livraria que precisava de um painel em estilo clássico para decorar o ambiente, mas não quer mangá; viu uma casa noturna que queria decorar a fachada com motivos high tech mas não quer mangá; viu uma oficina que precisava de algum tipo de desenho hiperreal para adesivar portas e capôs dos carros tunados mas não queria mangá; viu uma padaria que precisava fazer um folhetinho bem humorado para explicar aos seus clientes como agora é o novo sistema que foi adotado, mas não queria mangá; viu uma indústria de peças industriais que precisava de ilustrações técnicas para manuais de suas peças mas não precisava de mangá. Aí ele achou um sapateiro que precisava de um desenho para decorar o fundo da sua loja, na verdade ele queria algo mais tradicional e fulano foi logo empurrando um desenho de mangá, como o sapateiro não entende nada de arte, nem questionou.

Fulano passou então algum tempo se dedicando a fazer a imagem da sapataria com cara de mangá, se esbaldou mas não conseguiu convencer o sapateiro a pagar o que ele queria, mas se contentou com menos da metade do valor. Só que o sapateiro nunca mais pediu trabalho para fulano, e nem indicou fulano para trabalhar para outras pessoas.

Então, fulano voltou a procurar a bater nas portas por aí, viu uma redação de jornal que precisava de alguém de pudesse fazer algumas vinhetinhas, mas realista para os classificados, não era mangá. Achou um restaurante que precisava de um cardápio e que se tivessem algumas vinhetinhas estilizadas seria bem legal, mas na verdade não queria nada parecido com mangá. Aí achou uma assistência técnica de geladeira que precisava de uma fachada nova, mas não queria nada parecido com mangá.

Então fulano, desiludido resolveu participar de uma lista de discussão e postou que trabalhar com desenho no Brasil é F#$@%!

Você perceberam que fulano passou por inúmeros lugares aonde ele poderia ser útil, ele poderia ajudar, criar clientela, fazer as pessoas satisfeitas e não fez isso?

Por quê? Porque ele somente aceita fazer algo que na cabeça doentia dele é o SEU SONHO. Conseguiu enfiar pela goela abaixo de um possível cliente aquilo que o cliente NÃO precisava, em nenhum momento se preocupou se o cliente queria aquilo ou não. É por isso que o trabalho não gerou frutos.

Só que, ai daquele que resolver dizer pro fulano: seu trabalho naquela sapataria não tem nada a ver! O nosso herói vai se tornar inimigo mortal de quem ousou desqualificar seu trabalho, mas também não vai ter a humildade de reconhecer que aquela crítica pode ter fundamento.

Muitos de nós fazemos isso sem sequer perceber.

Por causa disso, algum de nós tem noção de qual é a imagem que os ilustradores tem no mercado?

Como os diretores de arte enxergam os ilustradores? Como os editores de arte enxergam os ilustradores? Como os diretores de marketing enxergam os ilustradores? Como os empresários enxergam os ilustradores?

Eu gostaria encarecidamente que cada um de nós pudesse chegar para as mais variadas pessoas que convivem com o nosso trabalho para saber, honestamente, qual é a imagem que o mercado tem de nós.

Algumas vezes eu procurei verificar isso, tendo o cuidado de não encabular a pessoa para que ela se sinta à vontade de falar o que ela realmente pensa (porque muitas aliviam já sabendo que o ilustrador não vai aceitar uma resposta se ela não for positiva) e percebi que a imagem não é nem um pouco legal.

Alguém já viu de longe como é um grupo de ilustradores como se junta?

Façam esse exercício, e vocês vão começar a perceber como o mundo nos enxerga. E verá que para o mundo nós somos muito menos do que aquilo que gostaríamos de ser.

Num evento, de longe você percebe quem é ilustrador. Só pela roupa e pela cara. Às vezes pelo jeito de andar.

A gente se denuncia e a imagem que passamos não é de um ser bem sucedido, não é de uma pessoa que está muito bem encaixada na sociedade. Ilustrador é estranho, mole, anda com uns aparatos esquisitos e sempre tem o mesmo papo. O corpo fala, e no nosso caso, muitas vezes não fala coisa muito animadora.

A gente não cuida nem mesmo da nossa imagem institucionalmente falando. Sinto muito se você gosta de usar camisa para fora da calça, calça de tergal, cabelo largado, pochete na cintura e prancheta na mão, tem óculos ensebado, anda em passos vacilantes e gosta de se instalar nos cantos do lugares. Todo mundo só sabe que você é um cara estranho.

Ilustrador se apresenta no mercado como se fosse estudante meio hipongo. Ou então crente que acabou de sair do culto, quando quer passar a imagem de profissional sério.

E temos uma aversão irracional a organização. Principalmente se for organização profissional. Quando o calo aperta falamos: alguém precisa fazer alguma coisa!!! Sempre esperamos que apareça algum Jesus Cristo para salva a nossa pele. Se aparecer alguém que seja menos do que isso, não vale. Quando aparece algum "salvador da pátria" com o ego mais inchado do que marombeiro que toma bomba, aí todo mundo vai atrás do cara. Ai, sicrano é o nosso líder, o patrono dos ilustradores!

Mas união que é bom...

Alguém precisa fazer por NÓS o que nós nos recusamos na maior parte das vezes a fazer. Isso é o que pega. Por isso é que sempre irá aparecer um "patrono" botando a banca. É por isso que sempre vamos precisar de ajuda, porque nós não fazemos a nossa lição de casa.

Cada um de nós irá se salvar somente a si mesmo, mas para isso é preciso que cada um de nós também veja no outro alguém igual a nós, para que a união seja uma soma de forças.

Ilustrador se recusa a se unir em dois ou três para procurar trabalho junto, quanto mais esperar que ilustrador se una para fazer algo em benefício de todos?

É isso que eu estou a inúmeros textos insistindo sem parar. Ao invés de ficar 10000 ilustradores se matando para 2000 oportunidades de trabalho, se unam, para que de repente, amanhã seja 5000 concorrendo com 2000 trabalhos, e quem sabe, mais tarde 2000 ilustradores, para 2000 trabalhos.

Mas se a gente se unir a gente ainda vai continuar sendo dois ou três pessoas para pegar trabalho, não muda nada...

Isso é típico de quem nunca cultivou uma mentalidade cooperativa na sua vida profissional.

A união das pessoas não apenas une portfolios em um só, não só aumenta a capacidade de realizar trabalhos maiores, não apenas serve para dividir despesas, mas uma união entre as pessoas, desde que realizada com plenitude faz com que dessa união das diferentes potencialidades e talentos do seu grupo possa surtir resultados mais ricos, abrangentes, capaz de atender necessidades de mais clientes, desenvolver trabalhos finais aonde haja maior riqueza de detalhes, cores, conceitos, composição.

Ilustradores trabalhando unidos ao mesmo tempo promovem entre si um estímulo ao desenvolvimento da qualidade do seu trabalho. Estímulo esse que ele jamais irá conseguir trabalhando sozinho.

Trabalhos com mais qualidade tem maiores chance de conseguir ter um orçamento mais alto, pois dão um retorno ao cliente melhor. Na hora de se fazer contato, a capacidade de abranger clientes também se potencializa. A capacidade de potencial para conseguir clientes e novas áreas profissionais também se amplia.

Na hora de procurar resolver problemas, criar soluções, aplicações novas ao trabalho, são duas, três ou quatro cabeças pensando ao mesmo tempo, cada uma podendo enxergar soluções em uma determinada área, enquanto que sozinho, você levaria muito mais tempo para ter resultados semelhantes.

Até na hora da dificuldade as pessoas que estão unidas conseguem focar melhor em ações para que a dificuldade acabe mais rápido, ou pelo menos diminua. Uma pessoa consegue ajudar outra a recobrar o ânimo nos momentos difíceis. Uma vez que você esteja sozinho, na hora da dificuldade, se você entrar em depressão, só ira sair a custa de muito esforço análise e remédio.

Trabalho em grupo força as pessoas a pensarem em grupo. Força as pessoas a procurarem soluções inclusivas, aonde os demais membros da equipe também participem, colaborem.

A união, em resumo, potencializa em termos de qualidade, rapidez, quantidade, poder de resposta, criatividade, evolução e aprendizado.

A gente costuma achar que tudo isso é perda de tempo, eu já vi muita gente que não estava disposta a se unir, não estava disposta a encontrar novas saídas, não estava disposta a aprender a conviver com a diversidade e a equilibrar seus interesses afim de trabalhar para o grupo e são pessoas que a anos estão com o mesmo trabalho, a mesma dificuldade, os mesmos clientes, reclamam das mesmas coisas, encontram as mesmas dificuldades em perceber uma saída profissional e não demonstram quase nenhum sinal de evolução, em nenhum ponto de vista.

Eu acho ridículo ter que escrever esse tipo de coisa, pois na minha cabeça tudo isso deveria ser de conhecimento de todos.

Eu conheço pessoas que a dois ou três anos atrás reclamavam das dificuldades e eu cheguei a propor uma união. Não deu certo, não aceitaram e por incrível que pareça, hoje em dia nas conversas que rolam, essas pessoas reclamam exatamente das mesmas coisas que reclamavam a dois, três anos atrás, ou seja, o tempo passa e nada mudou.

Agora, o pessoal diz que é preciso haver organização, uma Abipro organizada, com gente participando, pagando anuidade ou mensalidade.

Eu pergunto: como é que vocês acham que os ilustradores irão participar de uma associação, tocar assuntos complexos, discutir soluções, propostas, pensar no coletivo, se unir, se eles não fazem isso no seu dia a dia? Como acreditar que a união pode ajudar no macro, se não acreditamos em união no micro?

O problema quando se fala de reconhecimento, LDA, ABIPRO, união, associação é que NADA disso irá mudar enquanto o ilustrador não se melhorar.

Enquanto NÓS pensarmos da maneira como pensamos, enquanto nós não nos esforçarmos para ser melhor do que aquilo que somos atualmente, TODO esforço irá escoar pelo ralo.

Precisamos nos unir, desde o ambiente de trabalho no dia a dia, precisamos cooperar, primeiro nas pequenas coisas, admitir que estamos deixando de fazer a nossa lição de casa, estamos deixando de tornarmos empresas, de termos estúdios com endereço comercial, em procurar formar uma equipe, em ampliar nossas opções profissionais, estamos deixando de puxar a responsabilidade para nós e caminharmos sem olhar pra trás. Precisamos deixar de sermos bunda moles. Quem tem medo de viver, então se mata! Não dá para viver eternamente se negando e evoluir.

É um direito ficarmos parado? É um direito querer ser um profissional isolado? Não se unir?

É.

Só que tudo o que decidimos fazer ou não fazer na vida possui um resultado. Toda causa produz um efeito correspondente.

E o efeito do isolamento, da desunião, TODOS NÓS já conhecemos, que é exatamente isso que nós temos.

Se vocês quiserem continuar assim, tudo bem. Somos livres. Mas, de uma vez por todas, não nos iludamos que um dia a realidade de nossa profissão será diferente ou melhor do que a realidade que encaramos todos os dias se cada um de nós não estiver disposto a sermos diferentes e melhores.

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