21.2.09

It's a long way...

De acordo com as coisas que eu andei lendo por aí, vendo acontecer, e ouvindo ultimamente eu resolvi redigir esse texto, procurando da melhor forma possível orientar de maneira segura as pessoas que estão procurando desde o ponto ZERO até quem está procurando melhorar a sua posição no mercado.

Tudo começou quando eu estava começando, fazia cerca de uma semana que eu estava trabalhando numa agência de propaganda, já entre na McCann Erickson, isso era o comecinho dos anos 90, quando os computadores estavam fazendo uma verdadeira revolução na publicidade.

Lógico que eles não me contrataram como ilustrador, eu comecei de baixo no estúdio, montando anúncio com dupla face e cola de benzina (que anos depois foi responsável por acabar de vez com o meu olfato).

Enquanto muita gente já naquela época ralava para, fazendo faculdade de propaganda, conseguir depois de uma fila de dois anos, uma estágio que durava apenas dois meses, eram dois meses que o caboclo teria para provar aos Bambambans da agência que tinha algum talento, e olha que até que não era uma coisa muito injusta, um amigo meu fez, na época estágio na DPZ e lá era de apenas 15, outro amigo meu fez estágio na DM9 e ele concorreu com mais de 2000 pessoas para ocupar míseras duas vagas de estágio.

Agora eu consegui, correndo por fora, ser já contratado como assistente de estúdio, sem faculdade, somente com curso de desenho e uma pastinha debaixo do braço.

Claro que não foi assim tão fácil, na primeira vez que eu havia mostrado minha pastinha sem vergonha, eu acordei as 5h00 da manhã tomei banho, me arrumei todo e sentei na porta de uma agência de propaganda até a hora de chegar o primeiro funcionário para abrir a agência e me dizer como eu teria que fazer para procurar um estágio. Era uma agência que ficava na Av. Rebouças, hoje em dia ela nem existe mais...

Foram uns três ou quatro meses ligando do orelhão para as agências, sempre ouvindo desculpas esfarrapadas, muitas vezes sem dinheiro para comprar ficha telefônica. Naquela época eu estava desempregado em São Paulo, com 18 anos, passando fome literalmente (não foi a primeira vez e aquela não seria a última), minha família em Sorocaba sem mínimas condições de me ajudar financeiramente e ainda por cima fazendo pressão para eu voltar para casa. Mas eu não voltaria por nada nesse mundo. Mesmo com toda fome, toda angústia e todo sofrimento, eu me sentia VIVO, vivo como nunca havia me sentido antes.

Um belo dia eu resolvi ligar na Talent, uma das grandes agências do país, já que era para levar fora, que fosse de alguma empresa grande.

Eu conversei com um Diretor de Arte chamado Marcelo Machado, a última vez que eu ouvi falar desse cara ele era Diretor de Criação de uma agência chamada QG. Ele marcou uma entrevista comigo para a semana seguinte.

Cheguei no horário, com uma camisa surrada, calça preta, cabeludo, 59 quilos, olhos fundos atrás de um par de óculos de aro grosso e lentes razoavelmente grossas.

Não sei o que o cara viu em mim ou no meu desenho, mas à partir daquele dia, a minha vida estava mudando. Até hoje eu não tive a oportunidade de encontrar esse cara para agradecer por tudo o que ele me fez. Uns meses depois eu estava marcando para mostrar a pastinha na McCann depois de inúmeras indicações de indicação de indicação.

Os caras gostaram do meu desenho na hora, pra mim parecia um milagre, que me dera eu, um Zé Mané sem ter um gato para puxar pelo rabo, com dois ilustradores profissionais meio que se acotovelando para ver o meu desenho.

Até que o Paulinho Bueno, grande ilustrador das antigas perguntou: O que você acha dele fazer estágio aqui com a gente?

Estavam abertas as portas que definiriam o meu futuro profissional, mas para essa vaga aparecer foi necessário quase um ano, sempre desenhando, indo lá e mostrando a minha evolução no desenho.

Pois bem, na primeira semana como contratado eu conheci um dos que para mim até hoje é o maior Ilustrador que eu já tive a oportunidade de conhecer, ter amizade, aprender e ver trabalhando que é o Pedro Mauro, ele estava trabalhando dentro da agência como freelancer e era o único que ficava depois das 18h00.

Uma hora eu me enchi de coragem e perguntei para ele?

O que eu preciso fazer para ser ilustrador?

Ele me disse:
"Você já tem tudo só precisa paciência..."

E eu vou te dizer uma coisa, quando se tem 18 anos tudo o que você não tem é paciência. Mas mesmo assim foram anos a fio montando anúncio, aprendendo a pintar, primeiro com ecoline, depois com guache, depois com tinta acrílica, depois aerógrafo, depois o computador, Painter. trabalhar com mesa de luz, Letratone, filetar letra, marcar letra, pintar em cima de xerox, usar papel Schoeller, Fabriano, aquarela, fazer mancha, criar personagens.

Que escola foi aquela!

Mesmo depois de cinco anos, mesmo ilustrado tudo o que visse e imaginasse, mesmo dominando as mais variadas técnicas e estilo, ainda assim eu não conseguia ser promovido a ilustrador.

Por causa da minha impaciência, eu fui demitido, e aí a coisa ferrou de vez. Não ter o que comer se transformou numa constante, que exceção era ter comida ou dinheiro para comer.

Foram muitos seis meses sem trabalho. Contratar ninguém queria. Mesmo com todo mundo falando que eu desenhava bem.

Então me apareceu uma oportunidade de trabalhar com internet, era uma coisa que a já existia a uns anos e poderia ser uma boa oportunidade de trabalho.

Eu ganhei muuito dinheiro na época, era elogiado, o único cara que desenhava para o mercado de internet que conseguia desenhar em vários estilos diferentes. Eu me fiz no mercado, até o momento que o mercado de internet foi afundando, afundando...

Uma vez eu percebi que já não desenhava a muuuito tempo, coordenava um projeto bastante ambicioso, ganhava relativamente bem, era famoso no meio, respeitado pelos maiores profissionais da época, e somente ficaria sem trabalho se eu quisesse.

Mas uma coisa me incomodava, um bichinho carpinteiro aqui dentro parecia que não me deixava em paz, eu, intimamente me sentia um excluído, um exilado. Eu já não dormia em paz, parecia que alguma coisa me faltava na vida.

Foi então que eu explodi de uma vez por todas, conhecia muuuuita mutreta no mercado de internet, estava envolvido em briga de gente grande e já não sentia nenhuma satisfação em viver daquela forma.

Eu joguei tudo pro alto. Fui embora e nunca mais voltei. Então eu me lembrei de ilustração.

Então eu resolvi arriscar tudo na vida para voltar como ilustrador, montei meu portfolio com ilustrações com mais de três anos de idade, ou de velhice, e seja lá o Deus quiser.

Em um mês eu estava de novo no mercado de propaganda, ilustrando na Carillo Pastore.

Mais de dez anos haviam se passado desde aquela noite em que o Pedro havia me dito que tudo o que eu precisava era "paciência".

Eu me lembrei então de todo o caminho feito, meio como que profeticamente não teve outro jeito, eu PRECISAVA ter paciência, eu precisava amadurecer, conhecer as coisas, apanhar, mudar, me melhorar como profissional e como pessoa e sempre tentar, jamais desistir.

Por isso, se tem um conselho que eu possa dar para vocês e que por sua vez foi o mais útil da minha vida e que por mais de dez anos eu reneguei, até a hora que eu me lembrei dele novamente e resolvi aceitar as coisas andaram é: tenham paciência.

Se por acaso vocês sentem que falta alguma coisa, falta melhorar o desenho, falta treinar mais, corram atrás se aprimorem, e tenham paciência. Os resultados não aparecerão de um dia para o outro, não vai ser do dia pra noite que iremos enxergas as coisas, que iremos ter as nossas sacadas, que amadureceremos.

A evolução não dá saltos, aprendam a fazer com que o tempo se transforme no seu maior amigo, seu maior aliado, não façam do tempo seu inimigo, de todos os inimigos que podemos ter o mais implacável, o mais cruel é o tempo.

Tenham paciência, aprendam, estudem, se esforcem, melhorem-se como pessoas e como profissionais, nos organizemos, estejamos em paz com as dificuldades do nosso tempo, sem haver conformação, mas sabendo que para todo problema existe uma solução, mas elas podem ser lentas.

Aliás sempre as melhores soluções são as lentas, não tenhamos pressa.

It's a long way...

3 comentários:

  1. Anônimo2:36 PM

    Parabéns Flávio, pela coragem de dar nome aos bois, o cenário atual é desolador para os artistas em geral, sou artista plástica e temos quase os mesmos problemas, a impressão é que logo logo seremos todos extintos do mercado.
    Apesar de tudo, eu estou muito interessada em me aventurar nesta área de ilustração,só que ilustração literária. Sou artista plástica mas, de uns meses para cá encasquetei na idéia de ilustrar um livro do qual gostei muito,porém, não sou rica pra me debruçar sobre um projeto complexo sem ao menos saber se é possível publicá-lo um dia, mesmo que tenha que passar o chapeu para os parentes, mas eu gostaria de fazê-lo. Porém, embora eu tenha alguma habilidade com técnicas, não tenho idéia de como é ilustrar uma obra literária, falo de regras básicas, tamanho, papel, impressão,e tb de como apresentar o projeto para as editoras, etc.. A Net tem informalões pela metade, as pessoas não se ajudam, fica tudo meio no mistério. Se não for abuso, gostaria por favor que vc me desse algumas dicas de como posso começar.

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  2. O mercado de ilustração atualmente, creio eu, está quase que fadado ao fracasso, principalmente se a gente pegar o editorial, aonde existem milhares de ilustradores se acotovelando para ilustrar um único livro. A única aposta que eu atualmente faria nesse mercado é o de proejtos pessoais, mas nenhum outro.

    Caso você tenha algum interees em trocar uma idéia comigo pode entrar em contato por e-mail: flaviormota@gmail.com ou msn: flaviormota@hotmail.com

    []'s

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  3. Anônimo6:34 PM

    Agradeço sua resposta e oportunidade de contato para expor minhas dúvidas.Vou te escrever sim.
    Acho que seu esforço na batalha de regulamentar a profissão é extremamente válido e necessário, obviamente este é o caminho certo. Se precisar de uma voz a mais, conte comigo.
    Obrigada, um abraço e êxito na empreitada.
    Marlí

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