14.2.09

Sofisma - no nosso dia a dia

Outro dia eu estava pesquisando na Wikipedia e encontrei esse texto.

É curioso que, pelo menos para mim, se encaixa como origem de muitos dos nossos problemas de argumentação sobre a nossa valorização profissional e também sobre princípios éticos da profissão.

A impressão que se tem é de que os sofismas são coisas bastante distante do nosso dia a dia. Embora o português escrito seja bem lusitano, vale a pena ler o link e refletir.

O que acontece é que a gente não se liga muito, e costuma passar batido sem perceber ligação de certas coisas com o que a gente faz ou o mundo em que vivemos.

Por exemplo: quando as pessoas justificam a diferença de que um ilustrador de fora de São Paulo deva ganhar menos do que um ilustrador de São Paulo, ou uma empresa de fora do eixo Rio-São Paulo para justificar não querer pagar o valor que um trabalho merece ter mesmo se a empresa vender para o país inteiro.

A idéia de que o valor de um trabalho é relativo, até mesmo para se justificar a utilidade de uma ilustração. É muito comum ver pessoas dizendo que uma ilustração tem um valor inerente ao fato dela existir como arte, embora o valor deveria ser lógico e exato como o potencial de retorno financeiro que uma ilustração tem.

Outro ponto bastante discutível e que se encaixa muito no principio do sofisma é o "valor do artista", tem artista que vale mais, tem artista que vale menos, e porquê? Porque simplesmente eu valho mais do que você... Será que eu me sinto mais artista do que você???? Ou então que todos tem o mesmo valor, desde o Picasso ao Zé da esquina, desde o Miquelângelo ao cara que desenha em guardanapo de papel. Nada pode ser comparado, nada pode ser avaliado. Não é assim, tem coisa boa e tem coisa ruim. O fato de um trabalho ser ruim não é porque eu tenho uma formação cultural que não me permita ver a beleza daquele desenho, mas é porque o ilustrador precisa evoluir no seu trabalho. Isso costuma gerar até mesmo melindres, e muita gente se esconde de não ouvir um NÃO atrás de um sofisma como esse.

Agora se nós procuramos nos profissionalizar, evoluirmos como profissional e como desenhistas, então é bastante pertinente que possamos avaliar os trabalhos, as práticas comerciais para que possamos escolher e criar saídas para a nossa realidade.

Nesse universo de formação profissional, esses sofismas acabam sendo argumentos que confundem e não esclarecem, costumam criar uma cultura de "castas" aonde alguns nasceram para brilhar e outros nasceram para ser pisoteados. Alguém vale mais como ilustrador porque desenha com bico de pena e o outro que desenha com caneta futura vale menos, por exemplo, embora o resultado de ambos sejam iguais, é uma idéia absurda.

Ou que um ilustrador iniciante, por ser iniciante deve cobrar R$50,00 por um trabalho que um ilustrador com 10 anos de carreira deve cobrar R$ 350,00, um com vinte anos R$ 500,00 e um com trinta R$ 1200,00, porque um é iniciante, outro tem dez anos de mercado e outro tem trinta, sendo que todos os três fazem o MESMO trabalho e levam o MESMO tempo para fazer o trabalho. Como se o imposto que o iniciante paga fosse menor, como se, quando o iniciante fosse comprar material da papelaria ele tivesse um desconto especial por ser iniciante.

Existe muita justificativa para puxar seus valores para baixo, ou porque você é iniciante, ou porque você é inexperiente, ou porque você é velho demais; ou porque você não sabe das coisas, ou porque tudo o que você aprendeu é ultrapassado; ou porque você não é o Brasílio, ou porque você não é o Benício; ou porque você nunca trabalhou com o cliente, ou porque você sempre trabalha com o cliente; ou porque você precisa de dinheiro, ou porque você não precisa de dinheiro; ou porque o trabalho não vai quase aparecer, ou porque o trabalho vai aparecer em tudo quanto é lugar.

E assim por diante.

Quando a gente percebe que qualquer que seja a sua posição, tem uma lógica que prove para você que você não tem valor; ou quando por mais que haja diferenças nunca elas serão suficiente para para tirar ou manter alguém em evidência, pode contar que o Sofisma está se alojando nesse meio e dando cria.

Esse é um tema complexo, que pode mecher com a suscetibilidade das pessoas, mas que, se for analisado sem afetação pode nos dar um tremendo empurrão profissional.

Eu particularmente vejo os adeptos dos Sofismas como inimigos da harmonia entre as coisas.

Outro exemplo, é que existem clientes que se baseiam descaradamente me lógicas extremamente distorcidas com objetivo de confundir o fornecedor, mas também existem ilustradores que igualmente se utilizam de fórmulas sofistas para "enrolar" os clientes.

Muito ilustrador que percebe que deveria fazer a sua lição de casa e não faz, que é investir em cursos, estudar e treinar para aprimorar a sua técnica, investir em infra estrutura e procurar adaptar o seu tipo de trabalho para as demandas de mercado, costumam se vender como seres, quase que imateriais, cujo trabalho está acima do bem e do mal.

Não aceitam refação, não aceitam mudar estilo ou técnica e não aceitam serem questionados.

Com o tempo esse tipo de ilustrador vai perdendo cliente, mas deixa um rastro de destruição aonde tenha passado, clientes que ficam até mesmo traumatizados e largam mão de usar ilustração porque acham que ilustrador é tudo temperamental, estrela, impositivo, orgulhoso, etc.

O pior de tudo é que o uso de sofisma para engambelar ilustradores com idéias de que trata-se de trabalho grande, o de projeção profissional é o resultado indireto do abuso de idéias sofistas por parte de ilustradores mais antigos. Quem nunca ouviu falar daquele ilustrador das antigas, bom pra caramba e que esconde o seu segredo, não mostra pra ninguém como ele trabalha? Isso com medo de perder mercado. Esconde tanto o ouro que esconde detalhes técnicos até dos clientes, que ao receber explicações pouco conclusivas sobre o seu trabalho, acabam se cansando de não compreenderem a lógica por trás do trabalho do cara e acaba trabalhando com foto, que é menos complicado.

Eu me lembro a uns dez anos atrás, eu era fornecedor de uma revista, desses que trabalhava regularmente, e a redação dessa revista recebeu, um belo dia a visita de um ilustrador figurão da época, que já havia ilustrado muito para revistas com temas de ufologia e ocultismo e tinha um trabalho já bastante conhecido.

O problema é que o cara foi "vender" o seu trabalho, mas o tipo de trabalho que o cara fazia, o trabalho não estava muito de acordo com a linha editorial da revista. Então o belo e formoso ilustrador figurão, em mais de duas horas de conversa com o editor ficou tentando de toda forma convencê-lo, não só a contratá-lo para ilustrar, porque ele era um cara importante, já tinha feito isso e aquilo, como estava tentando convencer o editora a editar uma revista nova, que não existia, só para essa revista ter uma linha editorial que condissesse com o trabalho do cara.

Que tremenda cara de pau!!

E eu ali só prestando atenção no showzinho do cidadão...

Resultado, hoje em dia ninguém mais se lembra do cara, nem eu consigo me lembra do nome dele para escrever aqui... Era um xarope cabeludo, meio bicho grilo.

Então a gente começa a ver que ser sério é não tentar enrolar o outro, seja cliente, seja quem for. Não se utilizar de técnicas de oratória ou retóricas avançadas para confundir o cliente. Ninguém gosta de ser tratado como criança. Se você algum dia não tiver explicação para vender o seu trabalho, vale mais a pena se calar e apenas ser cordial do que tentar tirar leite de pedra.

E a mesma coisa com relação a forma do cliente te tratar. Se alguma vez o cliente não for CLARO, não respeitar regras, dizendo o que ele quer, como ele quer, de que jeito ele quer e para qual finalidade, por qual prazo, respeitando o seu valor seja ele qual for e respeitando contratos, PULE FORA!

Muitas vezes a gente fica com dor na consciência de perder cliente que não quer pagar o seu valor, ou que não quer fazer contrato, ou quer que você já vá fazendo porque ele está com pressa antes de acertar valores e prazos, só que esse clientes costumam ser aquele que tomam seu tempo de impedem achar um cliente melhor, e quase NUNCA compensa porque ele te da o cano e te sacaneia. O pior de tudo é que o ilustrador nessa história é sempre a "mulher de malandro", sempre acha que o cara vai mudar e sempre leva pancada na cara.

Se o pessoal simplesmente aprendesse a evitar clientes assim, metade dos problemas dos ilustradores acabariam, pois os problemas na sua grande maioria são, ou de clientes que não te valorizam, ou falta de trabalho. Pelo menos, um dos problemas se resolvem.

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