17.9.10

Sobre união, regulamentação e tudo mais

Quando a gente fala de "LDA" é quase impossível não tratar também do assunto "regulamentação".

E quando a gente fala de regulamentação é difícil também não tocarmos no assunto "organização de classe".

Lógico que falando desse jeito parece que o tema é coisa de sindicalista, de trabalhadores que procuram se opor a patrões ou a um grupo de espertinhos que se aproveita de pobres operários para tirar vantagem.

Independente dessas visões pré-concebidas que temos, o assunto é profundo, delicado e tão importante quanto as duas outras características mencionadas.

É importante haver uma organização entre profissionais de ilustração? Eu diria que não é importante, é fundamental. É com muita tristeza que eu vejo um grande número de colegas que pensam que união e organização é coisa de gente maldosa, quem quer explorar a ingenuidade alheia. Como se um objeto por si só fosse a causa de uma mal, e não a utilização que se faz dele.

Seria como dizer que todo automóvel seria culpado pelos acidentes de trânsito e violência que existe no trânsito do país. O que faz com que o nosso trânsito seja violento, caótico e cheio de vítimas é o comportamento do cidadão, e não o carro.

Se todos os que dirigem automóveis no país hoje passassem a andar de barco, os problemas apenas seriam transferidos para a água, mas a confusão seria a mesma.

Isso significa que o mal não está em se ter um sindicato, uma associação de classe, um clube de profissionais, o problema está em cada um de nós.

O "mercado", isso é: a legislação e a interação que temos com ela, o relacionamento cliente/fornecedor, a formação profissional, a condução profissional, o relacionamento entre profissionais do meio, o modo de trabalho, o sistema comercial adotado e as perspectivas de futuro da profissão são frutos da capacidade que TODOS NÓS temos de interagir nesses pontos.

Se o "mercado" não é animador, é porque NÓS fizemos dele um mercado não muito animador. Se existe muita concorrência desleal, é porque NÓS não sabemos manter um concorrência ética. Se os valores cobrados são cada vez mais baixo, isso só acontece porque NÓS nos comportamos de maneira a fazer com que o mercado desvalorize o nosso trabalho (valorização aqui é relativo à grana, mesmo), se os clientes nos tratam como pessoas não tão profissionais como gostaríamos de ser tratados, é porque NÓS nos comportamos perante os nosso clientes, seja na hora do contato, no briefing, do orçamento, da execução ou do pós venda de maneira a fazer com que eles entendam que nós não somos tão profissionais assim; o mercado não se mostra com uma perspectiva de futuro tão boa, porque NÓS conduzimos a nossa profissão para um destino nebuloso.

O mercado é apenas o reflexo de nós mesmos. O mercado de ilustração é complicado? Pois precisamos ter a humildade de perceber que isso foi o melhor que cada um de nós conseguiu fazer com o seu mercado.

Humildade aliás, talvez seja a grande palavra, a palavra chave de tudo. Não temos na maioria das vezes humildade para admitir que poderíamos ser bem melhores do que somos, não temos humildade para admitir que o nosso trabalho poderia ser bem melhor do que é, não temos humildade para admitir que a maneira como trabalhamos poderia ser muito mais profissional, não temos humildade para admitir que cobramos muitas vezes uma bala por um trabalho que a gente faz nas coxas, sendo que a gente poderia trabalhar o tanto que justificasse o valor que nos será pago.

Provavelmente vai ter pelo menos uma dúzia de pessoas que irá ler esse meu texto e irá, como sempre se ofender, ou achar "O Flávio não queria dizer exatamente isso". Queria dizer sim. Tanto quis que é exatamente isso o que está escrito. Mas o problema é que muito de nós sequer tem humildade de ler e ao invés de se sentir ofendido "eu não faço trabalho nas coxas...", "eu sou bão!" "eu sou artista!" Falta humildade para admitir que estamos, na verdade indo para o buraco. E quem está fazendo com que a profissão vá para o buraco? Nós.

Se os valores são cada vez mais baixo, se trabalhar de graça em troca de divulgação está se tornando algo comum, se os clientes não dão importância para o nosso trabalho, se a gente não tem mais pra quem vender ilustração, isso só acontece porque NÓS estamos transformando ilustração num produto de baixo valor, de baixa qualidade, de baixa importância.

A culpa é NOSSA!

No meu ponto de vista, percebo que existem dois grandes entraves ao crescimento da profissão de ilustrador: a primeira eu já disse que é a falta de humildade. A outra é o excesso de sonho.

Ilustrador fulano de tal sempre sonhou trabalhar fazendo mangá, mas ninguém contrata fulano para fazer mangá. Então ele pega sua pastinha e sai por aí tentando convencer editores, publicitários e empresários que o que eles precisam é de mangá para resolver os seus problemas. Só que um ou outro acredita nisso e mesmo assim paga um dinheirinho que mal dá para tomar ônibus por um mês. Fulano, ao sair por aí viu lojas femininas que precisavam de quadros e murais com visual limpo e feminino, mas não precisa de mangá; viu uma livraria que precisava de um painel em estilo clássico para decorar o ambiente, mas não quer mangá; viu uma casa noturna que queria decorar a fachada com motivos high tech mas não quer mangá; viu uma oficina que precisava de algum tipo de desenho hiperreal para adesivar portas e capôs dos carros tunados mas não queria mangá; viu uma padaria que precisava fazer um folhetinho bem humorado para explicar aos seus clientes como agora é o novo sistema que foi adotado, mas não queria mangá; viu uma indústria de peças industriais que precisava de ilustrações técnicas para manuais de suas peças mas não precisava de mangá. Aí ele achou um sapateiro que precisava de um desenho para decorar o fundo da sua loja, na verdade ele queria algo mais tradicional e fulano foi logo empurrando um desenho de mangá, como o sapateiro não entende nada de arte, nem questionou.

Fulano passou então algum tempo se dedicando a fazer a imagem da sapataria com cara de mangá, se esbaldou mas não conseguiu convencer o sapateiro a pagar o que ele queria, mas se contentou com menos da metade do valor. Só que o sapateiro nunca mais pediu trabalho para fulano, e nem indicou fulano para trabalhar para outras pessoas.

Então, fulano voltou a procurar a bater nas portas por aí, viu uma redação de jornal que precisava de alguém de pudesse fazer algumas vinhetinhas, mas realista para os classificados, não era mangá. Achou um restaurante que precisava de um cardápio e que se tivessem algumas vinhetinhas estilizadas seria bem legal, mas na verdade não queria nada parecido com mangá. Aí achou uma assistência técnica de geladeira que precisava de uma fachada nova, mas não queria nada parecido com mangá.

Então fulano, desiludido resolveu participar de uma lista de discussão e postou que trabalhar com desenho no Brasil é F#$@%!

Você perceberam que fulano passou por inúmeros lugares aonde ele poderia ser útil, ele poderia ajudar, criar clientela, fazer as pessoas satisfeitas e não fez isso?

Por quê? Porque ele somente aceita fazer algo que na cabeça doentia dele é o SEU SONHO. Conseguiu enfiar pela goela abaixo de um possível cliente aquilo que o cliente NÃO precisava, em nenhum momento se preocupou se o cliente queria aquilo ou não. É por isso que o trabalho não gerou frutos.

Só que, ai daquele que resolver dizer pro fulano: seu trabalho naquela sapataria não tem nada a ver! O nosso herói vai se tornar inimigo mortal de quem ousou desqualificar seu trabalho, mas também não vai ter a humildade de reconhecer que aquela crítica pode ter fundamento.

Muitos de nós fazemos isso sem sequer perceber.

Por causa disso, algum de nós tem noção de qual é a imagem que os ilustradores tem no mercado?

Como os diretores de arte enxergam os ilustradores? Como os editores de arte enxergam os ilustradores? Como os diretores de marketing enxergam os ilustradores? Como os empresários enxergam os ilustradores?

Eu gostaria encarecidamente que cada um de nós pudesse chegar para as mais variadas pessoas que convivem com o nosso trabalho para saber, honestamente, qual é a imagem que o mercado tem de nós.

Algumas vezes eu procurei verificar isso, tendo o cuidado de não encabular a pessoa para que ela se sinta à vontade de falar o que ela realmente pensa (porque muitas aliviam já sabendo que o ilustrador não vai aceitar uma resposta se ela não for positiva) e percebi que a imagem não é nem um pouco legal.

Alguém já viu de longe como é um grupo de ilustradores como se junta?

Façam esse exercício, e vocês vão começar a perceber como o mundo nos enxerga. E verá que para o mundo nós somos muito menos do que aquilo que gostaríamos de ser.

Num evento, de longe você percebe quem é ilustrador. Só pela roupa e pela cara. Às vezes pelo jeito de andar.

A gente se denuncia e a imagem que passamos não é de um ser bem sucedido, não é de uma pessoa que está muito bem encaixada na sociedade. Ilustrador é estranho, mole, anda com uns aparatos esquisitos e sempre tem o mesmo papo. O corpo fala, e no nosso caso, muitas vezes não fala coisa muito animadora.

A gente não cuida nem mesmo da nossa imagem institucionalmente falando. Sinto muito se você gosta de usar camisa para fora da calça, calça de tergal, cabelo largado, pochete na cintura e prancheta na mão, tem óculos ensebado, anda em passos vacilantes e gosta de se instalar nos cantos do lugares. Todo mundo só sabe que você é um cara estranho.

Ilustrador se apresenta no mercado como se fosse estudante meio hipongo. Ou então crente que acabou de sair do culto, quando quer passar a imagem de profissional sério.

E temos uma aversão irracional a organização. Principalmente se for organização profissional. Quando o calo aperta falamos: alguém precisa fazer alguma coisa!!! Sempre esperamos que apareça algum Jesus Cristo para salva a nossa pele. Se aparecer alguém que seja menos do que isso, não vale. Quando aparece algum "salvador da pátria" com o ego mais inchado do que marombeiro que toma bomba, aí todo mundo vai atrás do cara. Ai, sicrano é o nosso líder, o patrono dos ilustradores!

Mas união que é bom...

Alguém precisa fazer por NÓS o que nós nos recusamos na maior parte das vezes a fazer. Isso é o que pega. Por isso é que sempre irá aparecer um "patrono" botando a banca. É por isso que sempre vamos precisar de ajuda, porque nós não fazemos a nossa lição de casa.

Cada um de nós irá se salvar somente a si mesmo, mas para isso é preciso que cada um de nós também veja no outro alguém igual a nós, para que a união seja uma soma de forças.

Ilustrador se recusa a se unir em dois ou três para procurar trabalho junto, quanto mais esperar que ilustrador se una para fazer algo em benefício de todos?

É isso que eu estou a inúmeros textos insistindo sem parar. Ao invés de ficar 10000 ilustradores se matando para 2000 oportunidades de trabalho, se unam, para que de repente, amanhã seja 5000 concorrendo com 2000 trabalhos, e quem sabe, mais tarde 2000 ilustradores, para 2000 trabalhos.

Mas se a gente se unir a gente ainda vai continuar sendo dois ou três pessoas para pegar trabalho, não muda nada...

Isso é típico de quem nunca cultivou uma mentalidade cooperativa na sua vida profissional.

A união das pessoas não apenas une portfolios em um só, não só aumenta a capacidade de realizar trabalhos maiores, não apenas serve para dividir despesas, mas uma união entre as pessoas, desde que realizada com plenitude faz com que dessa união das diferentes potencialidades e talentos do seu grupo possa surtir resultados mais ricos, abrangentes, capaz de atender necessidades de mais clientes, desenvolver trabalhos finais aonde haja maior riqueza de detalhes, cores, conceitos, composição.

Ilustradores trabalhando unidos ao mesmo tempo promovem entre si um estímulo ao desenvolvimento da qualidade do seu trabalho. Estímulo esse que ele jamais irá conseguir trabalhando sozinho.

Trabalhos com mais qualidade tem maiores chance de conseguir ter um orçamento mais alto, pois dão um retorno ao cliente melhor. Na hora de se fazer contato, a capacidade de abranger clientes também se potencializa. A capacidade de potencial para conseguir clientes e novas áreas profissionais também se amplia.

Na hora de procurar resolver problemas, criar soluções, aplicações novas ao trabalho, são duas, três ou quatro cabeças pensando ao mesmo tempo, cada uma podendo enxergar soluções em uma determinada área, enquanto que sozinho, você levaria muito mais tempo para ter resultados semelhantes.

Até na hora da dificuldade as pessoas que estão unidas conseguem focar melhor em ações para que a dificuldade acabe mais rápido, ou pelo menos diminua. Uma pessoa consegue ajudar outra a recobrar o ânimo nos momentos difíceis. Uma vez que você esteja sozinho, na hora da dificuldade, se você entrar em depressão, só ira sair a custa de muito esforço análise e remédio.

Trabalho em grupo força as pessoas a pensarem em grupo. Força as pessoas a procurarem soluções inclusivas, aonde os demais membros da equipe também participem, colaborem.

A união, em resumo, potencializa em termos de qualidade, rapidez, quantidade, poder de resposta, criatividade, evolução e aprendizado.

A gente costuma achar que tudo isso é perda de tempo, eu já vi muita gente que não estava disposta a se unir, não estava disposta a encontrar novas saídas, não estava disposta a aprender a conviver com a diversidade e a equilibrar seus interesses afim de trabalhar para o grupo e são pessoas que a anos estão com o mesmo trabalho, a mesma dificuldade, os mesmos clientes, reclamam das mesmas coisas, encontram as mesmas dificuldades em perceber uma saída profissional e não demonstram quase nenhum sinal de evolução, em nenhum ponto de vista.

Eu acho ridículo ter que escrever esse tipo de coisa, pois na minha cabeça tudo isso deveria ser de conhecimento de todos.

Eu conheço pessoas que a dois ou três anos atrás reclamavam das dificuldades e eu cheguei a propor uma união. Não deu certo, não aceitaram e por incrível que pareça, hoje em dia nas conversas que rolam, essas pessoas reclamam exatamente das mesmas coisas que reclamavam a dois, três anos atrás, ou seja, o tempo passa e nada mudou.

Agora, o pessoal diz que é preciso haver organização, uma Abipro organizada, com gente participando, pagando anuidade ou mensalidade.

Eu pergunto: como é que vocês acham que os ilustradores irão participar de uma associação, tocar assuntos complexos, discutir soluções, propostas, pensar no coletivo, se unir, se eles não fazem isso no seu dia a dia? Como acreditar que a união pode ajudar no macro, se não acreditamos em união no micro?

O problema quando se fala de reconhecimento, LDA, ABIPRO, união, associação é que NADA disso irá mudar enquanto o ilustrador não se melhorar.

Enquanto NÓS pensarmos da maneira como pensamos, enquanto nós não nos esforçarmos para ser melhor do que aquilo que somos atualmente, TODO esforço irá escoar pelo ralo.

Precisamos nos unir, desde o ambiente de trabalho no dia a dia, precisamos cooperar, primeiro nas pequenas coisas, admitir que estamos deixando de fazer a nossa lição de casa, estamos deixando de tornarmos empresas, de termos estúdios com endereço comercial, em procurar formar uma equipe, em ampliar nossas opções profissionais, estamos deixando de puxar a responsabilidade para nós e caminharmos sem olhar pra trás. Precisamos deixar de sermos bunda moles. Quem tem medo de viver, então se mata! Não dá para viver eternamente se negando e evoluir.

É um direito ficarmos parado? É um direito querer ser um profissional isolado? Não se unir?

É.

Só que tudo o que decidimos fazer ou não fazer na vida possui um resultado. Toda causa produz um efeito correspondente.

E o efeito do isolamento, da desunião, TODOS NÓS já conhecemos, que é exatamente isso que nós temos.

Se vocês quiserem continuar assim, tudo bem. Somos livres. Mas, de uma vez por todas, não nos iludamos que um dia a realidade de nossa profissão será diferente ou melhor do que a realidade que encaramos todos os dias se cada um de nós não estiver disposto a sermos diferentes e melhores.

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