18.8.10

Para não fazer a bola da regulamentação cair

É fácil perceber que um assunto não tem gás para ir muito à frente, não porque o assunto em si seja irrelevante, como uns até fazem crer, mas porque muitos encontram grandes dificuldades em manter um fio condutor lógico capaz de manter começo, meio e fim.

Quando falamos em regulamentação para ilustrador, o que se vê é um mar de pensamentos desconexos, aonde algo se percebe sobre quais seriam os primeiros passos a serem dados, e algo meio desfocado se percebe sobre qual seria o destino a se chegar.

Mas precisamos compreender que, para se chegar a uma destino é preciso ter uma trajetória, e o importante, como diz um amigo meu advogado, é o "iter".

Quando falamos a palavra "regulamentação" devemos antes de mais nada compreender que a palavra em si não possui um significado definido 100% para todas as pessoas, e é bastante fácil perceber isso, pois mesmo entre pessoas que pensam nesse termo alguns imaginam restringir o acesso de novatos a uma profissão, outros de formatar uma formação, outro de instituir uma tabela de preços.

Só que regulamentação significa: instituir um conjunto de regras. Acabei de ver no Dicionário.

Não significa obrigar necessariamente obrigar todo ilustrador a ter formação acadêmica, ou ter seu trabalho avaliado para conseguir um registro de ilustrador profissional.

Isso apenas aconteceria se um órgão competente, representante de ilustradores assim entender e tiver apoio de sua base para isso,

Mas vejam vocês que estamos tratando apenas do ponto final da discussão que é a tal regulamentação.

O problema é que existe o ponto inicial e é preciso compreender aonde ele se situa,

Imaginem vocês um garoto de seus 14 anos que gosta de desenhar e sonha trabalhar com desenho. O que ele deve fazer? Qual caminho ele tem pra seguir?

Se ele estudar numa escola de desenho, vai virar um profissional da área? Existe curso técnico? Existe curso superior? No Brasil inteiro?

Pra quem ele vai trabalhar? Ele vai ser contratado por quem? Existe estágio nessa área? Aonde? Para ser um profissional de ilustração a gente consegue ser um funcionário, ou somente como profissional liberal? Pra ser profissional liberal basta saber desenhar?

Mas então eis que temos listas de discussões, o Guia do Ilustrador e revistas em PDF sobre ilustração. Parece que todos os problemas serão sanados por esses recursos.

Serão?

Depois dessas grandes conquistas, houve aumento no nível do técnico médio do trabalho dos ilustradores no Brasil? Houve aumento do salário médio dos ilustradores no Brasil? Houve um melhor direcionamento em termos de absorver novos ilustradores no Brasil? A concorrência entre profissionais se tornou maior ou menor? Diminuíram as ofertas injustas de trabalho de ilustração no país?

A resposta é uma só: ninguém sabe.

Pior do que se a resposta fosse um simples "não". A resposta é: num sei. Ninguém sabe e qualquer que seja a resposta tenham certeza de que tudo não passa de especulação. Sabem por quê? Por que não existe uma única forma de se medir isso.

Portanto, para o mercado ter uma direção é preciso haver uma forma de se medir, se se fazer estimativas, cálculos, pesquisas e montar o panorama profissional de nossa área, para depois, ao se medir (mesmo que os parâmetros de medição sejam imperfeitos) traçar objetivos para conseguir através dos mesmos parâmetros numéricos perceber indicativos provando que as ações tomadas surtem efeitos positivos.

Isso é o que toda empresa faz, o IBGE faz isso, o IBOPE faz isso, a Datafolha faz isso, mas ilustrador não faz.

Por que ilustrador não faz? Porque isso não é papel para ser feito por UM ilustrador, nem por UMA lista de discussão, é para ser feito por um órgão que tenha como objetivo coletar informações sobre a realidade de nossa profissão, mapear o panorama da nossa realidade e discutir ações capazes de fazer com que o panorama possa melhorar com o tempo.

Pra mim, isso já é um passo dado no sentido de uma regulamentação.

Mas para isso, é preciso haver união e não pessoas que apenas questionem, discutam e discordem. Enquanto não houver um meio, mesmo que imperfeito de auferir o panorama de nossos profissional todo e qualquer discurso sobre conquistas é mera propaganda infundada.

É preciso haver união, e acima de tudo é preciso haver um órgão que se responsabilize, dentre outras coisas, por isso.

Quando eu estava a frente da Abipro, eu pude na época criar alguns gráficos medindo o grau de satisfação, expectativas e direcionamentos entre os profissionais de nossa área, tanto é que eu cheguei até mesmo a apresentar esses gráficos em palestras. Embora as pesquisas fossem falhas, eu mesmo comecei aos poucos a perceber um pouco o panorama de nossa profissão nesse país todo.

Muito do que eu percebi eu inclusive escrevi na mensagem anterior sobre o assunto, mas existem peculiaridade sobre nosso profissionais e principalmente sobre nossos profissionais iniciantes que vão além daquilo que eu já havia escrito, tanto em listas de discussões quanto no meu blog.

Por exemplo: existe um expoente crescimento de ilustradores entrando no mercado, embora os clientes para as ilustrações seja, no ponto de vista de todos, apenas editoras, agências e produtoras, e essas empresas não crescem na mesma proporção em que cresce o número de ilustradores no mercado. Os ilustradores acreditam haver espaço para eles apenas nos grandes centros urbanos do país, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Tudo isso faz com que a profissão sinta uma tendência de pessimismo pois, esses dois centros urbanos precisam absorver o pais inteiro.

No entanto as empresas de comunicação, nossos clientes tradicionais não existem somente nesses dois centros, e os profissionais de ilustração precisam dar valor aos clientes locais. É muito fácil a gente ver as pessoas escrevendo coisas como: na minha cidade os clientes são tudo gente com cabecinha fechada,,, mas você como profissional de sua região, será que também não tem a sua cabecinha fechada? Se um cliente de São Paulo te contratar você faz, refaz, refaz de novo, serve cafezinho, manda link do seu site, envia cartão de natal, trata o cliente que é um mimo só, mas para o cliente da sua cidade você trata como se fosse um fardo. E quer ser tratado pelo cliente de sua cidade como?

Para ser valorizado é preciso valorizar. É preciso descentralizar. É preciso que os profissionais do nordeste trabalhem para empresas do nordeste, que profissionais do sul trabalhem para empresas do sul, que profissionais no centro-oeste trabalhem para empresas do centro-oeste.

Ah, mas no Centro-oeste tem pouco jornal, revista e agência. Mas tem muito o quê aí, afinal de contas? Tem muita agroindústria, fazendeiro... Então os profissionais dessa região precisam aprender a direcionar o seu trabalho para essa área. Simples assim. Ninguém vai reinventar a roda, só vai ter o bom senso de fazer algo que na minha cabeça é obvio.

No Nordeste também não tem tanta agência e nem editora... mas tem o quê? Tem bastante turista, tem hotel... Eu acho que não é preciso saber para qual setor a profissão precisa aprender a se direcionar, né?

Tem um grande amigo meu do nordeste e que vira e mexe a gente conversa sobre as dificuldades que ele tem aonde ele vive, e numa dessas conversas ele me disse que lá tinha turista para caramba, mas vivia brigando com cliente que não pagava, não dava valor pro trabalho dele e tal... Aí eu perguntei: e turista paga bem? E ele disse: paga né, mas eu não faço trabalho pra turista... Na hora eu emendei: Por que você não faz? Se é quem paga bem e tem um monte aí? Vai ficar até quanto perdendo seu tempo e sua saúde com cliente que paga mal? Aí deu um estalo no cara! Começou a desenvolver um trabalho de caricatura e retrato parecido com os lambe-lambes que são muito comuns no interior do nordeste, só que tiram foto. Ele ainda foi absorvendo no trabalho dele elementos visuais característicos da xilogravuras dos cordéis nordestinos e o resultado ficou sensacional!

O lance é ter cabeça e perceber o mundo a sua volta e não ficar sonhando com o que não existe, a oportunidade de se realizar profissionalmente pode estar nas características de sua região. Isso é uma coisa que uma associação poderia muito bem orientar. E deveria. Isso é regulamentar.

Se nos Estados Unidos os ilustradores da costa leste trabalham para o mercado de cinema enquanto que na costa oeste trabalham para propaganda, isso é uma dica que lá eles são o que são porque seus profissionais perceberam que não se rema contra a maré.

Aí tem gente aqui no Brasil que quer fazer quadrinhos. Qual a porcentagem da população brasileira lê quadrinhos? 0,1%? 0,01%? Tudo bem nem eu sei, mas sei que é muito pouca gente, disso eu tenho certeza, ninguém da minha família e amigos lêem quadrinhos. Tá bom, um amigo meu lê. Mas vamos acordar. Vocês não percebem que fazer quadrinhos no Brasil é um mal negócio? Não tem público...

Se você quiser, pode criar algum mecanismo que fomente a leitura de quadrinhos no Brasil, legal, é preciso ter números, criar algo com esse objetivo, criar uma meta e um prazo para essa meta ser cumprida. É assim que se faz.

Pode ser que a meta não seja alcançada, mas é assim que se faz.

Esse tipo de coisa é uma pequena parte de exemplos de se colocar ordem no galinheiro, como também formatar e orientar em como ter uma estrutura pequena mediana e grande de trabalho na nossa área, e assim por diante.

Aos poucos, com as coisas sendo colocadas em ordem, o grau e a probabilidade das injustiças ocorrerem, assim como a melhora na remuneração, diminuição da concorrência desleal irão se abrandando. Agora isso não é coisa que se consegue com um lista de discussão e nem com um guia do ilustrador.

É preciso mais do que isso, mas é preciso haver união repito novamente, seriedade, consciência de grupo, consciência global, visão estratégica, tudo isso concentrado em um órgão, seja ele uma associação, clube de ilustradores, que possa ser encarado por todos como uma casa que acolhe a todos indiscriminadamente e não como um opositor, um inimigo a ser batido, não como um lugar feito para que uns e outros sejam endeusados.

As várias iniciativas, como SIB, ABIPRO, Bistecão, Ilustragrupo, ImagoDays, ACB, GRAFAR, UNIC, grandes comunidades de desenhistas na net, devem aprender a ser fraternas, encontrarem seus caminhos , se unir, se ajudarem mutuamente, fraternalmente e entenderem de uma vez por todas, ninguém é inimigo de ninguém, não somos opositores uns dos outros, temos objetivos em comum e precisamos fazer com que haja espaço para todos, todos os profissionais tenham seu espaço, mas para isso é preciso ter regras justas e claras, e mesmo que essas regras não sejam uma tabela de preços ou um registro para poder trabalhar como ilustrador, e isso, mesmo assim já é uma regulamentação.

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