16.8.10

Ainda sobre a regulamentação

Vira e meche nas comunidades, listas de discussão e rodinhas de profissionais volta o tema "regulamentação da profissão".

A um tempo atrás, vimos em alguns locais virtuais esse tema voltando, e parecia que enfim, as discussões iriam desencantar em alguma coisa.

Todos nós, (eu inclusive) sofremos de um grande mal, que é a falta de capacidade de manter o interesse em assuntos sérios entre nossos pares por muito tempo, com capacidade quase nula de levar um assunto sério a conclusões mais elaboradas.

Às vezes eu acho que sofremos de algum tipo de distúrbio de défict de atenção, mas o problema maior nem é esse, mas o fato de que esse problema não atinge 100% de nossos profissionais, eu mesmo já conheci muito ilustrador com um grau de lucidez capaz de fazer com que muito jurista, empresário e formador de opinião ficar boquiaberto. O problema é o restante de nossos pares parecem não perceber que existe alguém ao nosso lado com essa lucidez toda.

Uma coisa que também deve ser levada em consideração é que a capacidade racional de uma pessoa nem sempre é acompanhada pelo talento como artista, e tem muita gente que embora não tenha se destacado tanto como grandes gênios do traço são verdadeiras crânios no que diz respeito a forma de compreender o mundo a sua volta, o mercado que fazemos parte e capacidade de interagir no meio com domínio.

O problema é que nossos amigos de traço costumam ter ouvidos mais abertos para os ilustradores que tem o portfolio mais exuberante ou são mais bem sucedidos profissionalmente, e nem sempre um portfolio com trabalhos bonitos acompanham uma capacidade estratégica, visão panorâmica de uma situação ou lucidez tão apurada. Mesmo porque os profissionais mais bem sucedidos sentem bem menos motivos para desenvolverem sua capacidade de questionamento ou seu interesse por questionar e querer mudar as regras do jogo, uma vez que eles se adaptaram bem ao mundo como ele é, estão "ganhando" o jogo da vida com essas regras miseráveis que nós vivemos e não tem tanto interesse em mudar as regras.

Acho que todo mundo já viu em algum lugar a frase: em time que está ganhando não se mexe. Pois bem, os grandes espoentes de qualquer segmento são aqueles que melhor se adaptaram as regras do jogo, melhor porveito sabem tiras das peculiaridades, justas ou injustas dessa nossa vida e não sofrem na pele os desabores da dificuldade de se ajustar ao sistema.

Numa sociedade egocêntrica como a nossa, esse problema acaba muitas vezes se agravando mais ainda, pois existe um número muito grande de pessoas que olham apenas para si mesmo e não percebem que na mesma realidade em que vivem muita gente sofre, e sofre mais do que seria aceitável.

O que eu quero dizer é que somente tem interesse em mudar o mundo pessoas embuídas de um grande sentimento de altruísmo ou pessoas que não venceram na vida. Querer que um grande nome do mercado mude os rumos para beneficiar a todos é uma visão de mundo infantil, infelizmente, eles não entendem que o mercado precisa mudar.

Mesmo porque até mesmo as pessoas que se encontram na base da pirâmide profissional, quando, por algum motivo se vê em melhores condições de vida, automaticamente perdem interesse em querer que o sistema mude. e essa falta de interesse em mudanças costuma ser proporcional ao grau de adaptabilidade que a pessoa encontra, salvo excessões de pessoas com comportamento genuinamente altruísta.

Nosso mercado é bastante bagunçado, mas as pessoas que se adptaram a bagunça generalizada e tem bons clientes, pega bons trabalhos, não se sentem tão incomodadas com as injustiças características de nossa realidade. Algumas até mesmo podem acreditar que a desorganização profissional que atinge o restante é um bom negócio, pois permite que quem está no topo não precise se preocupar tanto em manter a sua liderança e hegemonia mercadológica. Vivemos num país aonde a camada dominante gosta de escarnecer daqueles que estão abaixo por sua ignorância e entendem que manter os que estão abaixo na ignorância em que se encontram irá permitir a perpetuação de seus domínios.

Não percebem que, na verdade acreditram ser eles mesmos pessoas de menor capacidade, pois todo aquele que reconhece em si uma superioridade na capacidade intelectual, moral e social não se importa em permitir os que estão abaixo de si ter acesso ao conhecimento, cultura e educação. A diferença é que aonde os que estão embaixo tem educação, cultura e conhecimento criam sociedades com menor grau de conflitos.

Vivemos num país aonde o nosso mercado, o de ilustração, sofre muito com uma grande série de problemas, temos uma sociedade que supervaloriza a tecnologia e menospreza a cultura, aonde as pessoas dão muita importância a rapidez com que uma coisa é feita ao invés de se importarem com a qualidade dessas mesmas coisas, existe um culto a facilidade e praticidade de maneira desmedida. Esses pontos são percebidos principalmente em meios de produção dinâmica, como uma espécia de reflexo da necessidade que temos de produzir coisas cada vez mais rápidas, mais simples, mais funcionais, diretas, e baratas.

Na ilustração, o que nos deparamos é com o reflexo dessa realidade. Hoje em dia é muito comum ver conflitos de prioridades, tanto entre clientes potenciais quanto entre profissonais de ilustração. Existem clientes que valorizam a qualidade acima de tudo, mas uma parcela muito grande é incapaz de perceber que à partir de um determinado padrão visual, existe a capacidade de se atingir uma qualidade muito maior. Muita gente acredita que chegando num ponto, o que houver à mais é desperdício, desperdício de informação visual, frescura, motivo apenas para aumentar custos.

Esse é um sintoma que não reflete simplesmente a desvalorização do ilustrador ou da ilustração, mas a popularização, a massificação da ilustração. Quando existiam meia dúzia de clientes para ilustração, também existiam meia dúzia de ilustradores. Essas empresas tinham demanda por importarem um sistema profissional de outros países que já tinham a cultura de ilustração, e exigia antes de mais nada qualidade, e quanto mais qualidade, melhor o pagamento. E essas empresas sabiam que qualidade gerava retorno financeiro na outra ponta.

O que aconteceu é que desde sempre a quantidade de ilustradores oferecendo seus trabalhos no mercado teve um crescimento maior do que a quantidade se trabalho de ilustração para ser feito, e segundo a premissa básica de que quanto maior a oferta, menor o custo, naturalmente o nosso trabalho foi perdendo valor de mercado.

Quando apareceu o computador permitindo a ilustração digital, a quantidade de clientes potenciais de ilustração aumentou esponencialmente, e uma quantidade de clientes que, ao contrário dos primeiros, nunca tiveram uma cultura de ilustração importada de lugar nenhum, e a ilustração se tornou um acessório. São empresas que nunca imaginaram pagar R$10.000,00 por um mascote, mas quer um mascote; nunca irá pagar um valor desses nem em equipamento, quanto mais em um mascote.

Junto com essa quantidade de clientes, aumentou e em número ainda maior a quantidade de pessoas que se tornaram ilustradores, em proporção ainda muito superior a quantidade de clientes. E curiosamente esse exército de ilustradores também não tinham uma cultura de ilustração, sua cultura é semelhante a cultura dos novos clientes. Dessa maneira a popularização da ilustração foi feita com a popularização do profisisonal em grau ainda maior. Em alguns anos, o número de profissionais em nossa área saltou vertiginosamente.

Grande parte desse salto também se deu pelo fato de que muitos mercados que podemos considerar periféricos se saturaram, como o mercado para Diretores de Arte nos anos 90 e de designers na primeira década de 2000. Os profissionais que tinham grande dificuldade de se encaixar em suas profissões originais viram no mercado de ilustração um terreno fértil. Atualmente uma pessoa com R$ 2.000,00 no bolso se encoraja em montar um esquema para trabalhar com ilustração. A uns dez anos atrás esse valor mínimo para ser um ilustrador bem básico corria por conta de uns R$ 5.000,00, a quinze anos esse valor mínimo já era por volta de R$15.000,00 e a vinte anos era algo em torno de R$ 30.000,00.

Pode parecer que esse tipo de coisa não tenha qualquer ligação com o tema, mas o baixo custo para uma pessoa ter um esquema físico minimo para trabalhar e um portfolio permite que mais pessoas ingressem no mercado. E quanto maior a oferta...

Agora, esse panorama pode parecer bastante desanimador a primeira vista, mas para que não se cumpra uma tendência de piora com o tempo, somente um caminho deve ser levado em consideração: a regulamentação.

Os problemas são reais e já existem no mercado, mas o maior problema gira em torno da diminuição da qualidade dos profissionais, em muitos pontos, e uma ação conjunta poderia antes de mais nada fortalecer a qualidade do ilustrador como profissional, para depois fortalecer as ações conjuntas dos ilustradores, resultando como consequência num mercado regenerado.

Isso significa que regulamentação não se reduz a haver um dia do Ilustrador, ou a se ter um código CNAE específico para ilustrador, ou haver uma formação superior regular no país, mas um conjunto de ações, aonde haja a possibilidade de, a cada passo, os profissionais serem melhor preparados e oferecer um produto final de qualidade que force o mercado a se corrigir, tornando ilustradores melhores preparados em empresas, que por sua vez permitam que iniciantes possam ter uma caminho natural de inserção no mercado e diminua a disparidade entre os profissionais. Hoje em dia existe tanta diferença em nossa profissão que você encontra ilustradores que trabalham no quarto dos fundos de casa concorrendo com ilustradores com endereço comercial fora de casa, secretária, office boy e tia do café.

Acontece que para chegarmos a uma mudança quais seriam os passos? Será que alguém já chegou a estudar o que seria necessário?

Eu, juntamente com um grupo muito bom, a algum tempo atrás, passamos meses e meses reunidos na pensando quais seriam esses passos.

Tudo começou quando eu fui convidador pelo ilustrador Grego a fazer alguma coisa que pudesse incitar as pessoas a trabalharem em prol de uma regulamentação. Procuramos alguns políticos e tivemos algumas orientações.

A primeira orientação que tivemos era que se somos profissionais de uma determinada área, para conseguirmos qualquer coisa a nosso favor, precisamos ter um organização legal. Seja uma sociedade, associação, clube, ou qualquer coisa que possa representar nosso grupo. Seria necessário que essa entidade tivesse o objetivo claro de buscar a regulamentação, pois ela, para existir precisaria de tempo e precisaria contar com pessoas focada no objetivo.

Criamos então o Dossiê do Ilustrador e aguardamos por mais de um ano até que percebêssemos que havia entre nossos pares uma quantidade suficiente de pessoas capazes de se focarem nesse objetivo para conseguir alguma coisa específica. Num momento em que acreditamos ser o ideal, tornamos público esse documento e pedimos que qualquer pessoas, empresa ou entidade de ilustradores que tivesse interesse em continuar a conversa nos procurar para que pudessemos discutir ações reais.

Algumas pessoas se juntaram a nós, e por uma grata surpresa, percebemos que muitas delas tinham uma capacidade enorme de auxiliar a essa empreitada como se já tivessem prontas para isso. Como nenhuma asociação na época se importou conosco, então decidimos criar uma associação que pudesse representar a todos os profissionais, e assim focar as atividades em nome dessa associação, aonde todos pudessem criar ações, iniciativas variadas, discussões, palestras, exposições, banco de dados, debates, parcerias e convênios, debaixo de uma bandeira só.

Por isso foi criada a ABIPRO, que tem como único e exclusivo objetivo ser o meio aonde será possivel haver as conquistas para a nossa regulamentação.

Nessa época sabíamos que apenas criar uma associação não bastava, era preciso que ela tivesse uma atividade constante, para que as pessoas associadas a ela se habituassem, com o tempo, a se sentirem parte de um corpo, pois para lutar em benefício de conquistas é preciso ter o apoio daqueles que procuramos representar.

Propusemos que tivéssemos um encontro informal entre os associados para que houvesse uma integração entre todos, que houvesse uma lista de discussão para ser o canal principal de troca de informações e aprendizado entre os associados. Propusemos um site repleto de informações para que o associado se sentisse parte de um grupo. Propussemos organizar exposições para que os associados pudessem mostrar seus trabalhos e para que houvessem oportunidades de discutir assuntos pontuais visando lá no fundo amadurecer os profissionais para a conquista daregulamentação.

Propusemos, que depois de se conseguir isso tudo, que pudéssemos reivindicar um Dia do Ilustrador, para como crupo ganharmos força e representatividade junto aos políticos para, com o aprendizado dessa experiência, podermos ter força para pedirmos o reconhecimento com código CNAE próprio e posteriormente, caso fosse entendido que seria realmente importante continuarmos até a regulamenteção definitiva, que ela fosse perseguida de maneira consciente.

No entanto, muita gente não acreditou em nós. Não nos compreenderam. Encontramos muitas pessoas que se colocaram como nosso inimigos. Acharam que a nossa intenção era rivalizar com a SIB, que a minha intenção era ter súditos e seguidores, que essa associação servisse a interesses pessoais, a satisfação de egos ou ao acumulo de poder e influência.

Muita gente combateu cada iniciativa como se fosse indispensável exterminar a capacidade dessa associação ter vida própria. Me desulpem vocês que pensaram sermos nós seus inimigos, mas você não conseguiram entender e eu muito imbecilmente não consegui me fazer entender.

Meu maior erro, no entanto foi o de estar a frente e não saber lidar com os obstáculos que apareceram, e de não ter o equilíbrio necessário, e até mesmo a malandragem para contentar a todos, a paciência para esperar o momento de realizar e a ponderação necessária para, em momentos extremos não jogar tudo para o alto.

Eu sei quanto eu ofendi as pessoas que estiveram ao meu lado e quanto eu, achando que estava sendo justo, fui injusto e somente peço a todos, não simplesmente perdão por também ter atrapalhado uma coisa que era para ser de benefício de todos, mas peço que, se alguém ainda hoje realmente quiser continuar a trilhar o caminho para a regulamentação, que utilize o instrumento que já foi feito para isso e está a mais de um ano parado, e se não for utilizado com esse propósito, não terá qualquer utilidade, pois não é propriedade de absolutamente ninguém e não foi criada para rivalizar e nem para excercer influência sobre ninguém.

Gostaria, no entanto de agradecer meus companheiros de jornada durante essa época: Grego, Tuco, Rice, Iriam, Silvana, Eldes, Mancuso, Paulo Borges, Henrique, Alcode, Faoza e outros companheiros que apareceram ao longo do tempo, dizer que sem vocês nada teria sido feito, pois eu mesmo pouco ou nada tenho ou tive de capacidade de realização e sinceramente dizer o quanto eu sinto por, pelo meu comportamento, ter afastado vocês do caminho que havíamos traçado desde o início e assumo a responsabilidade e a culpa de não termos conseguido o nosso intuito.

Em todo caso, quem quiser levar o idéia adiante, se quiser utilizar a Abipro para isso, deve fazer por uma razão lógica, mas se não quiser não precisa, mas vai ter que abrir outra associação. Em todo caso, todas essas pessoas que eu mencionei tem conhecimento de causa, sabem contribuir e podem ser de grande valia de todos.

Da minha parte, permanecerei ainda no meu canto e desejo à todos sucesso e que sejam bem sucedidos.

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