21.2.05

Sobre uma mensagem do Montalvo

SOBRE UMA MENSAGEM DO MONTALVO

Hoje eu recebi pela lista de discução ilustrasite um email do Montalvo que mecheu muito com todo mundo, e comigo também.
Eu gostaria de postar aqui a mensagem na íntegra:

Caros,

 Estive na abertura do evento da Abril, Ilustrando em Revista, e mesmo fascinado com a grandiosidade do evento, tão esperado por todos, o prazer de rever amigos de profissão, e principalmente a oportunidade de ver originais espetaculares, como os do Benício, Ziraldo, Nilton Ramalho entre tantos outros, conversando com os outros ilustradores a gente chega a uma conclusão nada esperançosa: A nossa profissão, ao menos no mercado editorial, está sendo estrangulada. A esperança de continuar vivendo disto está estrebuchando, roxinha, no chão.

 É um consenso absoluto que os preços oferecidos (já que ilustrador nunca dá seu preço, ao contrário das relações comerciais no resto do mundo) estão muito abaixo da linha de sobrevivência, e cada vez mais os ilustradores estão buscando outras alternativas, seja trabalhando apenas com mercado de propaganda, direção de arte, vídeo e TV, internet, rádio (acreditem!), ou montando um comércio, etc. O último apaga a luz.

 Eu mesmo trocaria no ato, meus 20 anos de profissão por um estacionamento ou um sushi bar (Não é força de expressão, é verdade mesmo). Não faço a troca hoje, porque nunca sobrou um centavo de um mês para o outro nestes anos todos, muito pelo contrário. Mesmo cobrando acima da famigerada e paleolítica "tabela" das editoras.

 Neste evento conversei com editores de algumas revistas da Abril, que diziam que além de haver (veladamente, é claro) uma "onda" de evitar o uso de ilustração, havia um evidente constrangimento em chamar um ilustrador com a verba que eles tinham disponível, e acabavam achando outras alternativas, ou contratando alguém beeeem baratinho, mesmo que o resultado não fosse o ideal.

 Estamos numa era de metas de faturamento, e a nossa fatia do bolo é perfeitamente "enxugável" porque sempre tem um que faça por menos, menos, menos, ou até de graça. E não é algo que acontece apenas em uma editora, agência ou empresa, é um padrão generalizado, acontece em todos os níveis. Todo o mercado está estrangulando as verbas e exigindo maior produtividade. Uma hora a casa cai, não tem economia que aguente tamanha pressão.

 Entre um canapé e um gole de suco, lembramos de um tempo bom (pouco tempo, aliás, coisa de 5 ou 6 anos), em que publicar na Playboy e na Super eram as maiores metas profissionais de quem trabalhava com ilustração e fotografia. Era o máximo, só perdia para a National Geographic, que era o Everest dos criadores de imagem. Além de pagarem relativamente bem (era possível viver só disto), a aprovação dos trabalhos estava ligada diretamente a um rigoroso controle de qualidade. Hoje sabemos que não é mais assim, basta abrir as revistas para notar que o criério de escolha passa primeiro pela cotação do preço mais baixo. Apenas o melhor dos baratinhos é que tem chance de entrar nas páginas das publicações nacionais.

 Com este evento, e a avaliação de portfolios como um dos pontos altos promovidos pela organização, fica no ar o temor que estejam procurando pela nova geração de baratinhos, que poderá suprir a demanda de ilustradores atuais, com preços ainda menores. Resta saber se os baratinhos conseguirão fazer 40 anos de carreira, como tantos que estão expostos neste evento. Eu, pessoalmente, duvido que façam um décimo disto como ilustradores profissionais (sem papai pagando facu, carrinho zero, etc. Profissional paga suas próprias contas, todas elas).

 Em 1998 eu negociava facilmente até R$ 1500,00 por uma página dupla. No ano passado recebi propostas "pacote", de 3 duplas mais capa por inacreditáveis R$ 1000,00. Um Pacote como este deveria ser aberto apenas pelo GOE ou pelo esquadrão anti-bomba. Em outra ocasião me ofereceram R$ 180,00 por uma inteira, (que com muito esforço viraram R$ 450,00). 

 Mesmo que tivessem mantido os mesmos preços por 7 anos, já seria um grande prejuízo, mas a revisão dos valores das tabelas só anda de marcha-a-ré, e segue atropelando na contra-mão da economia mundial.

 Uma simples busca no google com a seguinte frase "em 1998 custava", trouxe resultados que falam por si:

 - O litro da gasolina, que em 1998 custava R$ 0,744, passou para R$ 2,00 (2002)

 - Em 1998, uma Honda CB 500 custava R$8.900,00.  Em 2003, custa R$17.600,00.

 - O metro quadrado de um desses escritórios, que em 1998 custava, em média, R$35, atualmente (2001) está em torno de R$ 65. A estimativa do mercado é de que, até o fim de 2002, o aluguel desse mesmo metro quadrado chegue a US$ 45.

 
- Um cartucho de tinta que em 1998 custava R$ 48 hoje está saindo por R$ 100.

 - valor total da obra que em 1998 custava R$ 19,606 milhões passou para cerca de R$ 87,699 milhões, representando assim um acréscimo de 347%

 Isto sem falar da grande batalha por direitos autorais, subtraídos por contratos absurdos, aviltantes, tirando das mãos dos autores os lucros de outras edições, publicações, idiomas, países e utilizações, muito além da solicitação inicial, que deveria ser para um único fim, em uma única edição. Pagando o mínimo e utilizando ao máximo, nesta relação comercial entre editoras e colaboradores, é fácil perceber quem sai perdendo, sempre.

 Curioso é que há conclusões que se chega só quando conversamos com os colegas. Qualquer um que reclame dos valores, e principalmente das cláusulas dos contratos, recebe a mesma resposta: "você é o único que reclama disto".

 Esta resposta ensaiada vai para a mesma lista de mentiras clássicas, como "vamos vestir a camisa", "eu sou honesto", "no próximo trabalho a gente compensa", "la garantia soy jo", "esta empresa é uma grande família", "não precisa me ligar, eu te ligo", "eu também estou investindo neste trabalho", "você é o primeiro, meu amor", "juro que é só a cabecinha, meu bem".

 Ao voltar pra casa, o tema "o canto do cisne" não saía da minha cabeça.

 Abraços,

 Montalvo


Muitas foram as respostas e discuções, muitas foram as opiniões.
Eu gostaria de colocar aqui a minha opinião, num email de resposta que eu enviei no começo da noite:

O mercado brasileiro nunca foi muito bom mesmo, acontece que havia uma época em que ilustrador era o cara que fazia um "puta trabalho" com uma técnica insuperável, era gente com estudo, anos de treino. Hoje en dia qualquer garatuja da vida transforma um Zé mané em ilustrador. O mercado editorial com sua sede de novidades, começo a abrir as portas para qualquer ilustração e qualquer ilustrador, bons ou ruins, só que nessa, os ilustradores que fazem um precinho mais em conta levam vantagem.

No começo as artes, todas imensamente trabalhadas, cheias de vida, eram um acréscimo violento de beleza e de valor estético em um livro. Com o tempo, esse impacto foi diminuindo e a importância da ilustração também, tanto é assim que muita gente pensa em ilustração como "tapa buraco". Uma coisa que deveria ter status de arte virou remendo! Quanto você pagaria para ter uma obra de arte na parede da sua casa? E quanto você pagaria para ter um remendo na parede? Eu duvido que alguém nessa lista pensou em pagar por um remendo a mesma coisa que pagaria para ter um "van Gogh" um "Monet" um "Cézanne" ou um "Miró". O pior de tudo é que o remendo para ser considerado "bem feito" precisaria passar desapercebido na parede.

Tem trocentos neguinhos ilustrando pra livro, no ano passado eu e o Tuco pegamos alguns livros da FTD pra fazer e quase viramos do avesso. R$80,00 por página e cada vez que vinha um livro novo, tinha menos prazo. E não pensem que era uma ilustração por página, era ilustração pra dar com pau! No começo a gente pensou: Vamos topar porque é uma oportunidade, sei lá, quem sabe não dá algum fruto? No final a gente pensava: Tomara que eles esqueçam que a gente existe! Nós não fazemos a mínima questão de voltar a trabalhar pra eles.

Acontece que se o pessoal das editoras invadirem o espaço das agências, sabe o que vai acontecer a longo prazo? A mesma coisa que acontece no mercado editorial!!!! Aliás, isso já está acontecendo! Tem uma cacetada de agência grande contratando moleque que mal sabe desenhar uma orelha pra fazer rabiscos com se fossem manchas, e outros tantos que vendem desenhos de história em quadrinhos como se fossem manchas. Aí na hora de produzir, o diretor do filme fica puto porque o cliente quer um cara musculoso igual ao do Storyboard, só que não existe cara musculoso daquele jeito, Aliás tem musculo no cara que nem existe... E as minas com cintura de vespa e peito de pomba? Alguém já viu uma dessa na rua? Nem eu!

Aí o Storyboard perde importância, o cara te fala, não faz muito detalhado porque o diretor não gosta!!! Ô Loco, meu! 150 paus num quadrinho todo largado, até meu filho faz melhor... Tudo por causa do imbecil que fodeu com os caras que mancham e não se toca que tem que primeiro aprender para depois se enfiar pra fazer um trabalho.
Meu, se um cara que acha bom R$80,00 por uma página fizer uma ilustração do mesmo tamanho para arte final de um cliente grande, empresa multinacional, pra sair na veja, vai cobrar quanto??? Uns R$500,00!! E vai sair dando pulinho de alegria, o trouxa! Se tivesse cobrado R$5000,00 ainda teria saído barato!

Aí, você ilustrador com trinta e tralalá anos de estrada, que manja de tudo e mais um pouco, sabe misturar cor, juntar estilos, estuda, se vira no avesso, faz meia dúzia de estudo antes de decidir por finalizar um trabalho, corre atrás de referência, compra livros de arte (caríssimos por sinal) para poder estudar, tira foto com máquina profissional e filme de cromo, usa computador profissional, tablet profissional, pincel profissional, tinta profissional, papel profissional e paga 40% de imposto , vai cobrar R$500,00?? Quinhentinho num dá nem pro começo! Pro Zé Mané que desenha com lápis nº2 no sulfitão, pinta com pincel Tigre e gouache gato preto, tira foto em maquininha digital de promoção no camelô, usa tablet genius de R$100,00 num PC Xing Ling de R$1500,00 se ganahr esse valor mais umas quator vezes no ano, já tá levando lucro!

O segundo tá a la Chinesa!
É imbatível! Imbostível!!!!
Tem mais é que passar uma Tsunami e matar todo esse bando de destruidor da qualidade! A QUALIDADE do que se faz à alguns anos está sofrendo um ataque pior do que qualquer Tsunami.
Vocês já compraram um produto Chinês? É menos que a metade do preço de qualquer similar feito em qualquer outro lugar do mundo. Mas já viram a qualidade? Tudo mal acabado, cheio de rebarba, feito nas coxas mesmo! Sorte que é barato! E olha que os caras lá ganham menos que a metade de nóis aqui e trabalham mais que o dobro. Ah, e são tratados como bicho!

 ....Mas tão ficando rico!!!!!
Vocês querem fazer a mesma coisa? Vamos contratar uns escravos pra trabalhar umas 20 hora por dia, pagar salário mínimo sem nenhum benefício e vender quadrinho de storyboard por R$30,00! Vamos conquistar o mercado! O trabalho é uma merda? E daí, tamos ficando rico!!!!
Vamo Aproveitaááá....!!!

Sinto muito, mas eu prefiro deitar a minha cabeça no travesseiro e dormir com a consciência em paz! Eu acho que qualidade é mais importante do que valore$, acontece que qualquer coisa boa vale $$$$, porque é único, não tem rebarba, é fruto de uma mente que ama o que faz, que se importa com a qualidade e com a beleza, e isso, bem ou mal, vai acabar sendo transmitida para o consumidor, que vai sentir algo muito melhor com aquele trabalho, mais sereno, mais harmonioso, mais saudável. Se você que leu esse email até aqui e ainda não sentiu vontade de deixar a mensagem de lado, então coloque uma coisa na sua cabeça: lute para fazer sempre o melhor, para treinar, para aprender. Tenha ética, humildade e boa vontade. Seja comprometido com o valor artístico do que você faz, e não com o valor monetário. Valorize o que precisa ser valorizado. E, acima de tudo, não queira pegar o mercado do outro profissional, apenas conquiste o seu mercado. não queira destruir, queira somar.

Nós precisamos nos valorizar, nos promover, mostrar pelos nosso atos e pelos nosso trabalhos que somos comprometidos, queremos evoluir. Talvez esse seja o momento que a gente possa pensar, refletir em abrir novos horizontes, novos mercados, chegar mais próximo do consumindor, do nosso consumidor a ampliar os nossos consumidores em potencial. Os ilustradores criaram um paradigma de que somente o mercado editorial e de propaganda é o nosso público, precisamos romper esse paradigma, ampliar nossos horizontes e não ficarmos nos matando para ver que vai ficar com o pedaço maior do bife. Que tal se a gente começasse hoje?
  []'s
  Flavio Roberto Mota


Agora, eu gostaria que quem estiver lendo também pudesse acrescentar alguma coisa.

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