30.9.10

A Mosca

Eu sou a mosca que pouso em sua sopa
Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar
Eu sou a mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto a zumbizar...

E não adianta vir me detetizar
Pois nem o seu DDT pode assim me exterminar
Porque você mata uma e vem outra em meu lugar...

Tá vendo amiguinho?

O que te desiquilibra não são minhas palavras, mas o fato é que minhas palavras estão recheadas de verdades que sua consciência vive te apontando, mas você ignora.

Minhas palavras são apenas o eco daquilo que você não pode esconder. E vive querendo esconder.

O tempo passa, a verdade vai aparecendo, e o pior, vai se destacando.

Eu não preciso fazer nada para que a realidade desponte, não vou perder meu tempo.

Mas saiba, eu sei quem você é.

Não sou seu inimigo.

Não tenho raiva de você.

Eu apenas sinto pena, de tanto rancor, tanto preconceito, tanto orgulho e vaidade que existe em seu coração.

Você fica doente cada vez que corre o risco de ser descoberto em público na sua verdadeira essência, por isso não consegue se controlar.

Seria muito mais útil para você conhecer sesu próprios defeitos para que, com força de vontade, você se aplique em transformá-los em qualidades.

Eu te perdôo, pois sei que eu também não sou perfeito. Eu tenho meus defeitos, são muitos e erro constantemente.

Mas procuro aprender com meus erros.

Até hoje eu não sei porque você é tão legal com todos, mas age sempre como se quisesse ser meu inimigo, meu maior inimigo.

Minha pessoa te incita inveja?

Minha presença te incomoda?

O fato de eu existir é motivo para sua infelicidade íntima?

Porque você quer tanto me destruir e destruir todas as coisas que eu construo com tanto afinco?

Eu sou, por acaso, algum câncer que precisa ser extirpado?

Eu sou, por acaso, algum animal selvagem?

Esse é o meu perfil?

Ou será que você enxerga em mim aquilo que você vive escondendo em você mesmo?

Eu não desejo o seu mal, mas isso não significa que eu vou começar a passar a mão em sua cabeça.

Eu não vejo em você uma ameaça a minha existência nem aos meus interesses, pois eles são sinceramente desprovidos de egoísmo.

Mas você não acredita em mim.

Não tem importância, eu não sou obrigado a provar nada para você.

Apenas aceite a minha personalidade como eu sou, da mesma maneira como eu aceito a sua.

Eu, sinceramente agradeço a Deus pela sua existência, pois toda tentativa que você faz para me prejudicar é uma prova para que eu saiba o que é realmente importante nessa vida, para que mesmo com pessoas que me odeiam, eu não envenene o meu coração.

Mesmo assim, minhas orações muitas vezes são endereçadas para você, pois deve ser muito sofrido ter o coração assim tão envenenado por sentimentos tão pouco nobres.

Mas eu tenho certeza que um dia tudo isso será passado, eu tenho certeza que um dia você será uma pessoa diferente. Um dia ainda haverá amor no seu coração.

E você então vai ver que eu nunca estive errado, nunca quis seu mal.

Eu não farei mal algum, mesmo quando você fizer coisas que permitam eu te atacar, eu te desmoralizar, eu não farei isso, pois eu não quero seu mal.

Você já deu inúmeras oportunidades para ser desmascarado, desmoralizado na frente das pessoas, mas eu nunca quis fazer nada de ruim para você, e não fiz.

Você ainda acha que manda nas pessoas, na consciência das pessoas, que a sua palavra é a última palavra, é a sentença final, mas não é.

Muitas pessoas olham para o seu comportamento com pena de seu ego, e apenas permitem que você se manifeste com toda sua imponência, todo seu preconceito, toda sua arrogância com dó. Você, na sua cegueira não percebe que todos estão vendo seus defeitos escancarados, acha que todos admiram seu peito inchado e seu coração vazio.

As pessoas percebem que quando você ataca alguém, falta em você respeito ao próximo, você é capaz de chafurdar na lama, não demonstra piedade de ninguém, em atitude típica de bárbaros.

Diz para mim que eu sempre acabo estragando tudo, mas quem acaba estragando tudo, afinal de contas?

Não vê que age exatamente da mesma maneira como você diz que as outras pessoas agem?

No entanto, eu não tenho raiva de você. Sei que você precisa de uma mão, de um amigo, pois eu sei que você não os tem.

Uma pessoa que age dessa maneira pode ser cercada de admiradores, mas eu espero que um dia você perceba que a maioria deles apenas esperam um momento de descuido seu para lhe aplicar um golpe pelas costas.

Porque você faz por merecer isso. Mas ainda é tempo de modificar isso tudo.

Se desarme.

Eu não estou aqui para te fazer mal algum.

Eu estou aqui para cumprir meu papel.

Papel esse que você não compreende.

Eu sei disso, e sei que é justamente pelo fato de você não compreender que você sempre procura me fazer tanto mal.

Mas um dia você irá despertar.

E sua consciência será sua verdadeira inimiga, e não eu.

Quando isso acontecer, provavelmente eu nada ou quase nada poderei fazer. Mas tenha certeza que se eu puder fazer alguma coisa, jamais será um golpe de misericórdia em você.

Fica com Deus.

23.9.10

Ensaio sobre o Sistema de Projetos Colaborativos

Nos últimos dias andaram pululando em minha caixa postal de pessoas discutindo, reclamando e denunciando concursos ou ações ditas “colaborativas”, a freqüência com que novos empreendimentos, principalmente pelo fato de que empresas grandes do mercado de comunicação começam a lançar mão desse recurso, me fizeram voltar atenção para esse tema especificamente.

Existem muitas discussões à respeito desse sistema, muita opinião a favor e contra. No entanto é difícil a gente ver uma análise sobre esse sistema para que a gente possa compreender com maior clareza e para que a gente possa ter um posicionamento antes mesmo de apaixonado, mas esclarecido, com algum embasamento.

O problema maior, penso eu, está no sistema em que a humanidade desse planetinha minúsculo adotou a séculos para pautar o seu modo de vida que é o sistema capitalista.

O capitalismo existe desde que o mundo é mundo, desde a época em que os homens viviam nas cavernas e procuraram um jeito que fosse mais eficaz para a convivência social sem os problemas decorrentes do escambo.

Acontece que de lá pra cá muitos pensadores apareceram no mundo, muito se tentou aplicar para tornar o capitalismo menos ruim ou até mesmo para substituí-lo, no entanto todas as tentativas fracassaram.

Mesmo assim, devemos dar o braço a torcer que foi graças as filosofias socialista, comunistas, anarquistas, social-democráticas e liberais o capitalismo atual é menos ruim do que ele já foi um dia, embora esteja longe de chegar num ponto de equilíbrio.

O problema é que, por mais que os sistemas tenham evoluído, acrescidos de princípios éticos e morais, qualquer pessoa que compreende que nesse sistema o mais importante é o dinheiro, não importa o que se faça para que cheguemos ao vil metal, desde que tenhamos dinheiro em nossas mãos.

Justamente as pessoas que focam o dinheiro até hoje são aplaudidos pela sociedade como pessoas de sucesso, se tornam modelos e exemplos a serem seguidos.

Em meio a essa praticidade que o pensamento capitalista puro pode trazer as pessoas, também existe uma quantidade muito grande de líderes bem sucedidos que perceberam que doutrinas sociais se tornam armas importante para fazer com que as massas percam o interesse em lutar com tanto afinco pelo dinheiro, e assim diminuem o acirramento na concorrência e facilitam o trabalho daqueles que não abrem mão do dinheiro a qualquer custo.

A questão é que nem todo mundo tem esse modo de pensar, aonde o que vale é fazer o outro de bobo, mas vivemos num mundo aonde pessoas declaradamente capitalistas se misturam com pseudo-socialistas e socialistas idealistas.

No final das contas o que acaba mandando ainda é o dinheiro e o cara cujo objetivo é apenas ganhar dinheiro acaba saindo em vantagem. Não estou dizendo com isso que o fato de se ganhar dinheiro faz de uma pessoa feliz, satisfeita ou que ela um dia possa vir a usufruir de todas as benesses que o dinheiro ganho pode proporcionar.

Compreendido esse introdução, vamos procurar compreender como uma empresa funciona.

Basicamente, sem que a gente fique especificando do que é uma empresa, podemos dizer que toda empresa tem alguns mecanismo essenciais para que existe e produza:
Compra - é a parte responsável por adquirir matéria prima e estrutura necessária para a produção
Diretoria – é a parte da empresa responsável pelo direcionamento e planejamento do que a empresa será, fará e se posicionará no mercado
Administração – é a parte que organiza o funcionamento da empresa
Produção – é a parte da empresa capaz de fazer o produto/serviço que é o objetivo da empresa
Venda – é a parte da empresa responsável por fazer com que o produto/serviço chegue até o seu público

Uma empresa tem como sua principal fonte de renda, a venda de seus produtos ou serviços. No entanto, existe atualmente outra fonte de renda para uma empresa que é através de venda de espaço publicitário. Isso existe para empresas que podem ter uma presença tão ativa no mercado que seja interessante para outras empresas ter seu nome vinculado a ela e utilizarem um espaço da empresa para mostrar o seu próprio produto ou serviço.

Hoje em dia também existe outra fonte de renda de uma empresa, que é através do licenciamento, aonde a empresa permite o uso da imagem de sua empresa para que outras empresas possam ganhar dinheiro em troca do pagamento de uma porcentagem do ganho obtido com o uso de sua imagem.

No entanto, muitos administradores descobriram outras maneiras de fazer com que o dinheiro que uma empresa lucre seja maior, uma vez que a empresa passe por algum processo de crise criativa, ou chegue no auge da sua capacidade de lucrar que é justamente diminuindo os gastos.

Esse princípio não é necessariamente errado ou antiético, uma vez que ele possa corrigir abusos como desperdício de dinheiro ou falta de foco de uma empresa com atividades de alto custo e pouco retorno financeiro.

Acontece que esse princípio básico já foi a muito tempo usado nas empresas e os seus administradores perceberam que também dá para aumentar o lucro das empresas contando outros gastos que não são necessariamente supérfluos.

Como seria isso?

Cortando gasto com os fornecedores, adquirindo matéria prima mais barata, mesmo que ela seja de qualidade inferior (coisa que fatalmente irá acontecer); fechando contrato de fornecimento em quantidade, diminuindo o valor unitário do material comprado,mas ainda oferecendo pelo volume negociado uma boa vantagem para o fornecedor. Também é possível demitir funcionários mais velho e com melhor salário e contratar funcionários novos por menos da metade do salário.

A questão nesse caso é que a primeira opção é mais elástica que as demais e mais viável principalmente para empresas cuja matéria prima não seja adquirida em quantidade.

Ilustradores são basicamente fornecedores de matéria prima para empresas de comunicação e eles são justamente um dos objetos dessa política de aumento de lucratividade das empresas através da diminuição dos custos..

Isso somado ao aumento vertiginoso de novos ilustradores no mercado, faz com que a situação seja da forma como já conhecemos.

Acontece que existe um limite saudável de diminuição de valores pagos por uma matéria prima e a aquisição de matéria prima com qualidade mínima capaz de oferecer alguma vantagem na hora do produto de uma empresa entrar no mercado.

Chega-se em um momento em que o valor baixo compromete e muito a qualidade final do produto oferecido que o produto perde seu atrativo para o consumidor e as suas vendas despencam. Aí aquilo que era lucro vira um prejuízo aonde será impossível reverter a situação pois os custo já foram cortados ao máximo e não existe nenhum investimento criativo capaz de fazer surgir alguma novidade no produto capaz de chamar a atenção do consumidor para aquele produto.

Fatalmente, esse processo terá como desfecho a falência da empresa.

Para evitar que o sistema adotado acabe com a falência da empresa, ou para que novas empresas possam ter condições de entrar no mercado e sobreviver com menos capacidade de retorno financeiro de seu produto/serviço, alguns administradores mais atentos começaram a lançar mão de princípios que fazem parte de filosofias socialistas, comunistas e anarquistas para se chegar a uma solução viável.

É aí que entra o sistema de projetos colaborativos: cria-se apenas para os fornecedores de matéria prima a possibilidade dos mesmos utilizarem o produto/serviço da empresa como escada profissional, permitindo a visibilidade da matéria prima do fornecedor.

Dessa maneira, o fornecedor irá fazer questão de oferecer uma matéria prima de qualidade, já que é de interesse dele fazer com que as pessoas saibam que a sua matéria prima é de qualidade, a custo zero.

Isso faz com que caiam as últimas barreiras possíveis do sistema, a empresa consegue diminuir ainda mais o seu custo e existe a possibilidade do seu produto voltar a ter a mesma qualidade que tinha antes e reconquistar o seu espaço perdido no mercado.

Para a empresa em questão, essa é a última barreira possível, e os administradores talvez não tenham percebido que abaixo desse ponto ninguém mais consegue chegar, mas a elas ainda restará mais algum tempo de sobrevivência, e essas mesmas empresas se apegam aos seus projetos colaborativos com unhas e dentes, pois sabem que é a última tábua a boiar no náufrago mercado lógico causado pelas suas más escolhas administrativas ao longo dos anos, só que eu aposto com quem quiser que essa tábua ainda não será a tábua da salvação.

Agora, o que o fornecedor ganha com esse sistema colaborativo?

Bem... a princípio o fornecedor ganharia uma espécie de espaço publicitário...

Eu sei que muita gente ao chegar nesse ponto do texto se pergunta: e o que tem de errado nisso?

Eu respondo para você: o que tem de errado é outro princípio básico que rege a organizações das sociedades desde sempre e que eu ainda não mencionei: O Estado de Direito.

O conceito básico do estado de direito é que para todo direito existe um dever. Num estado baseado em padrões médios de civilidade as pessoas recebem benefícios em troca de obrigações, e tanto um quanto outro são equivalentes. Ter o direito a algum benefício só existe quando o seu dever é de igual teor.

No Brasil esse conceito de Estado de Direito é muito mal compreendido ainda nos dias de hoje. Vemos pessoas que nunca contribuíram com um único imposto terem direito a programas sociais, enquanto outras pessoas pagam uma carga tributária absurda em troca de coisa alguma.

Vivemos num país aonde o direito virou vantagem e o dever virou prejuízo. Vivemos num Estado de Vantagem.

Por isso mesmo acaba sendo muito difícil para cada um de nós compreendermos essa relação de direitos e deveres, essa relação de que cada coisa que eu faço tem que obrigatoriamente me trazer de volta um benefício de igual teor.

Agora eu volto a fazer a pergunta: O que o fornecedor ganha com um projeto colaborativo?

Propaganda de graça? Só se a empresa ceder um espaço de igual tamanho ao da imagem que o ilustrador fez para criar um anúncio seu.

Ah, mas o artista pode assinar a sua obra. Assinatura de obra não é propaganda, é apenas uma forma de identificar o autor, nada mais do que isso. Isso entra dentro do direito inerente ao autor de uma obra ter sido o responsável pela obra, é o direito de um autor ser reconhecido pelo seu trabalho.

Uma propaganda pressupõe uma série de outras coisas, como estudo do público alvo e a confecção de uma peça capaz de atingir seu público alvo. É possível que com uma imagem que será utilizada para ilustrar uma matéria determinada se conseguir incluir elementos com objetividade suficiente para, ao mesmo tempo ilustrar a matéria e vender o artista? Eu divido...

E para estampar uma camiseta? Mas, entre os projetos colaborativos de estampa para camiseta existe uma premiação. Mas não existe qualquer contrapartida para os demais ilustradores.

Um sistema colaborativo seria justo se uma empresa de estampa chamasse UM ilustrador para fazer uma estampa e premiasse o trabalho do ilustrador.

Numa sociedade aonde existe um estado de direito TODO trabalho é recompensado, não somente os melhores trabalhos.

Agora, vamos fazer algumas suposições: Se o trabalho é colaborativo, então os fornecedores poderiam ter a sua contrapartida, ao invés do pagamento em dinheiro com algum benefício que fosse equivalente. A empresa que oferece o sistema colaborativo poderia, por exemplo se responsabilizar pelo pagamento das despesas de internet do seu fornecedor, ou oferecer gasolina por um mês para o seu fornecedor, Ou um mês de aluguel do seu estúdio pago pela empresa.

Enfim, uma mão lava a outra. O ilustrador colabora com o projeto da empresa e a empresa colabora com o projeto do ilustrador.

Agora, outra coisa que é muito curiosa é que o projeto só é colaborativo no que diz respeito ao fornecedor.

Se uma empresa adota o sistema de projetos colaborativos deve adotar o colaborativismo em 100% de sua empresa.

Ou seja: os funcionários trabalham em troca de divulgação, o contador trabalha em troca de divulgação, os espaços publicitários não devem ter custo, as demais matérias primas como tinta, papel etc. devem ser fornecidas de graça e, principalmente, o produto que a empresa realiza deve ser oferecido gratuitamente para todo mundo.

Agora, como uma Camiseteria quer me convencer a trabalhar de graça para ela se ela me cobra por uma camiseta sua? Como uma Trip vai me convencer a trabalhar de graça para ela se eu tiver que pagar para ter a Trip? Como uma Zupi vai querer que eu forneça meu trabalho de graça se ela cobra para eu ter a revista?

Aliás, essas empresas tem três formas de renda, conforme nós já citamos no início desse texto, e eu duvido que elas abram mão de suas rendas possíveis em nome do colaborativismo.

Portanto, eu me vejo obrigado, por tudo isso a chegar à conclusão de que o colaborativismo é um grande engodo, falsidade ideológica, golpe, tentativa de estelionato.

Cabe a cada um de nós porém, ter o direito de compreender na integra como é o sistema de projetos colaborativos e o dever de ensinar e divulgar a realidade para o maior número de colegas de profissão possível.

Eu somente aceitarei um sistema baseado em princípios socialistas ou anarquistas quando forem feitas por empresas que adotam esse sistema em todos os momentos e departamentos internos.

Caso contrário eu continuarei acreditando que a melhor contrapartida para um trabalho realizado é a remuneração.

17.9.10

Sobre união, regulamentação e tudo mais

Quando a gente fala de "LDA" é quase impossível não tratar também do assunto "regulamentação".

E quando a gente fala de regulamentação é difícil também não tocarmos no assunto "organização de classe".

Lógico que falando desse jeito parece que o tema é coisa de sindicalista, de trabalhadores que procuram se opor a patrões ou a um grupo de espertinhos que se aproveita de pobres operários para tirar vantagem.

Independente dessas visões pré-concebidas que temos, o assunto é profundo, delicado e tão importante quanto as duas outras características mencionadas.

É importante haver uma organização entre profissionais de ilustração? Eu diria que não é importante, é fundamental. É com muita tristeza que eu vejo um grande número de colegas que pensam que união e organização é coisa de gente maldosa, quem quer explorar a ingenuidade alheia. Como se um objeto por si só fosse a causa de uma mal, e não a utilização que se faz dele.

Seria como dizer que todo automóvel seria culpado pelos acidentes de trânsito e violência que existe no trânsito do país. O que faz com que o nosso trânsito seja violento, caótico e cheio de vítimas é o comportamento do cidadão, e não o carro.

Se todos os que dirigem automóveis no país hoje passassem a andar de barco, os problemas apenas seriam transferidos para a água, mas a confusão seria a mesma.

Isso significa que o mal não está em se ter um sindicato, uma associação de classe, um clube de profissionais, o problema está em cada um de nós.

O "mercado", isso é: a legislação e a interação que temos com ela, o relacionamento cliente/fornecedor, a formação profissional, a condução profissional, o relacionamento entre profissionais do meio, o modo de trabalho, o sistema comercial adotado e as perspectivas de futuro da profissão são frutos da capacidade que TODOS NÓS temos de interagir nesses pontos.

Se o "mercado" não é animador, é porque NÓS fizemos dele um mercado não muito animador. Se existe muita concorrência desleal, é porque NÓS não sabemos manter um concorrência ética. Se os valores cobrados são cada vez mais baixo, isso só acontece porque NÓS nos comportamos de maneira a fazer com que o mercado desvalorize o nosso trabalho (valorização aqui é relativo à grana, mesmo), se os clientes nos tratam como pessoas não tão profissionais como gostaríamos de ser tratados, é porque NÓS nos comportamos perante os nosso clientes, seja na hora do contato, no briefing, do orçamento, da execução ou do pós venda de maneira a fazer com que eles entendam que nós não somos tão profissionais assim; o mercado não se mostra com uma perspectiva de futuro tão boa, porque NÓS conduzimos a nossa profissão para um destino nebuloso.

O mercado é apenas o reflexo de nós mesmos. O mercado de ilustração é complicado? Pois precisamos ter a humildade de perceber que isso foi o melhor que cada um de nós conseguiu fazer com o seu mercado.

Humildade aliás, talvez seja a grande palavra, a palavra chave de tudo. Não temos na maioria das vezes humildade para admitir que poderíamos ser bem melhores do que somos, não temos humildade para admitir que o nosso trabalho poderia ser bem melhor do que é, não temos humildade para admitir que a maneira como trabalhamos poderia ser muito mais profissional, não temos humildade para admitir que cobramos muitas vezes uma bala por um trabalho que a gente faz nas coxas, sendo que a gente poderia trabalhar o tanto que justificasse o valor que nos será pago.

Provavelmente vai ter pelo menos uma dúzia de pessoas que irá ler esse meu texto e irá, como sempre se ofender, ou achar "O Flávio não queria dizer exatamente isso". Queria dizer sim. Tanto quis que é exatamente isso o que está escrito. Mas o problema é que muito de nós sequer tem humildade de ler e ao invés de se sentir ofendido "eu não faço trabalho nas coxas...", "eu sou bão!" "eu sou artista!" Falta humildade para admitir que estamos, na verdade indo para o buraco. E quem está fazendo com que a profissão vá para o buraco? Nós.

Se os valores são cada vez mais baixo, se trabalhar de graça em troca de divulgação está se tornando algo comum, se os clientes não dão importância para o nosso trabalho, se a gente não tem mais pra quem vender ilustração, isso só acontece porque NÓS estamos transformando ilustração num produto de baixo valor, de baixa qualidade, de baixa importância.

A culpa é NOSSA!

No meu ponto de vista, percebo que existem dois grandes entraves ao crescimento da profissão de ilustrador: a primeira eu já disse que é a falta de humildade. A outra é o excesso de sonho.

Ilustrador fulano de tal sempre sonhou trabalhar fazendo mangá, mas ninguém contrata fulano para fazer mangá. Então ele pega sua pastinha e sai por aí tentando convencer editores, publicitários e empresários que o que eles precisam é de mangá para resolver os seus problemas. Só que um ou outro acredita nisso e mesmo assim paga um dinheirinho que mal dá para tomar ônibus por um mês. Fulano, ao sair por aí viu lojas femininas que precisavam de quadros e murais com visual limpo e feminino, mas não precisa de mangá; viu uma livraria que precisava de um painel em estilo clássico para decorar o ambiente, mas não quer mangá; viu uma casa noturna que queria decorar a fachada com motivos high tech mas não quer mangá; viu uma oficina que precisava de algum tipo de desenho hiperreal para adesivar portas e capôs dos carros tunados mas não queria mangá; viu uma padaria que precisava fazer um folhetinho bem humorado para explicar aos seus clientes como agora é o novo sistema que foi adotado, mas não queria mangá; viu uma indústria de peças industriais que precisava de ilustrações técnicas para manuais de suas peças mas não precisava de mangá. Aí ele achou um sapateiro que precisava de um desenho para decorar o fundo da sua loja, na verdade ele queria algo mais tradicional e fulano foi logo empurrando um desenho de mangá, como o sapateiro não entende nada de arte, nem questionou.

Fulano passou então algum tempo se dedicando a fazer a imagem da sapataria com cara de mangá, se esbaldou mas não conseguiu convencer o sapateiro a pagar o que ele queria, mas se contentou com menos da metade do valor. Só que o sapateiro nunca mais pediu trabalho para fulano, e nem indicou fulano para trabalhar para outras pessoas.

Então, fulano voltou a procurar a bater nas portas por aí, viu uma redação de jornal que precisava de alguém de pudesse fazer algumas vinhetinhas, mas realista para os classificados, não era mangá. Achou um restaurante que precisava de um cardápio e que se tivessem algumas vinhetinhas estilizadas seria bem legal, mas na verdade não queria nada parecido com mangá. Aí achou uma assistência técnica de geladeira que precisava de uma fachada nova, mas não queria nada parecido com mangá.

Então fulano, desiludido resolveu participar de uma lista de discussão e postou que trabalhar com desenho no Brasil é F#$@%!

Você perceberam que fulano passou por inúmeros lugares aonde ele poderia ser útil, ele poderia ajudar, criar clientela, fazer as pessoas satisfeitas e não fez isso?

Por quê? Porque ele somente aceita fazer algo que na cabeça doentia dele é o SEU SONHO. Conseguiu enfiar pela goela abaixo de um possível cliente aquilo que o cliente NÃO precisava, em nenhum momento se preocupou se o cliente queria aquilo ou não. É por isso que o trabalho não gerou frutos.

Só que, ai daquele que resolver dizer pro fulano: seu trabalho naquela sapataria não tem nada a ver! O nosso herói vai se tornar inimigo mortal de quem ousou desqualificar seu trabalho, mas também não vai ter a humildade de reconhecer que aquela crítica pode ter fundamento.

Muitos de nós fazemos isso sem sequer perceber.

Por causa disso, algum de nós tem noção de qual é a imagem que os ilustradores tem no mercado?

Como os diretores de arte enxergam os ilustradores? Como os editores de arte enxergam os ilustradores? Como os diretores de marketing enxergam os ilustradores? Como os empresários enxergam os ilustradores?

Eu gostaria encarecidamente que cada um de nós pudesse chegar para as mais variadas pessoas que convivem com o nosso trabalho para saber, honestamente, qual é a imagem que o mercado tem de nós.

Algumas vezes eu procurei verificar isso, tendo o cuidado de não encabular a pessoa para que ela se sinta à vontade de falar o que ela realmente pensa (porque muitas aliviam já sabendo que o ilustrador não vai aceitar uma resposta se ela não for positiva) e percebi que a imagem não é nem um pouco legal.

Alguém já viu de longe como é um grupo de ilustradores como se junta?

Façam esse exercício, e vocês vão começar a perceber como o mundo nos enxerga. E verá que para o mundo nós somos muito menos do que aquilo que gostaríamos de ser.

Num evento, de longe você percebe quem é ilustrador. Só pela roupa e pela cara. Às vezes pelo jeito de andar.

A gente se denuncia e a imagem que passamos não é de um ser bem sucedido, não é de uma pessoa que está muito bem encaixada na sociedade. Ilustrador é estranho, mole, anda com uns aparatos esquisitos e sempre tem o mesmo papo. O corpo fala, e no nosso caso, muitas vezes não fala coisa muito animadora.

A gente não cuida nem mesmo da nossa imagem institucionalmente falando. Sinto muito se você gosta de usar camisa para fora da calça, calça de tergal, cabelo largado, pochete na cintura e prancheta na mão, tem óculos ensebado, anda em passos vacilantes e gosta de se instalar nos cantos do lugares. Todo mundo só sabe que você é um cara estranho.

Ilustrador se apresenta no mercado como se fosse estudante meio hipongo. Ou então crente que acabou de sair do culto, quando quer passar a imagem de profissional sério.

E temos uma aversão irracional a organização. Principalmente se for organização profissional. Quando o calo aperta falamos: alguém precisa fazer alguma coisa!!! Sempre esperamos que apareça algum Jesus Cristo para salva a nossa pele. Se aparecer alguém que seja menos do que isso, não vale. Quando aparece algum "salvador da pátria" com o ego mais inchado do que marombeiro que toma bomba, aí todo mundo vai atrás do cara. Ai, sicrano é o nosso líder, o patrono dos ilustradores!

Mas união que é bom...

Alguém precisa fazer por NÓS o que nós nos recusamos na maior parte das vezes a fazer. Isso é o que pega. Por isso é que sempre irá aparecer um "patrono" botando a banca. É por isso que sempre vamos precisar de ajuda, porque nós não fazemos a nossa lição de casa.

Cada um de nós irá se salvar somente a si mesmo, mas para isso é preciso que cada um de nós também veja no outro alguém igual a nós, para que a união seja uma soma de forças.

Ilustrador se recusa a se unir em dois ou três para procurar trabalho junto, quanto mais esperar que ilustrador se una para fazer algo em benefício de todos?

É isso que eu estou a inúmeros textos insistindo sem parar. Ao invés de ficar 10000 ilustradores se matando para 2000 oportunidades de trabalho, se unam, para que de repente, amanhã seja 5000 concorrendo com 2000 trabalhos, e quem sabe, mais tarde 2000 ilustradores, para 2000 trabalhos.

Mas se a gente se unir a gente ainda vai continuar sendo dois ou três pessoas para pegar trabalho, não muda nada...

Isso é típico de quem nunca cultivou uma mentalidade cooperativa na sua vida profissional.

A união das pessoas não apenas une portfolios em um só, não só aumenta a capacidade de realizar trabalhos maiores, não apenas serve para dividir despesas, mas uma união entre as pessoas, desde que realizada com plenitude faz com que dessa união das diferentes potencialidades e talentos do seu grupo possa surtir resultados mais ricos, abrangentes, capaz de atender necessidades de mais clientes, desenvolver trabalhos finais aonde haja maior riqueza de detalhes, cores, conceitos, composição.

Ilustradores trabalhando unidos ao mesmo tempo promovem entre si um estímulo ao desenvolvimento da qualidade do seu trabalho. Estímulo esse que ele jamais irá conseguir trabalhando sozinho.

Trabalhos com mais qualidade tem maiores chance de conseguir ter um orçamento mais alto, pois dão um retorno ao cliente melhor. Na hora de se fazer contato, a capacidade de abranger clientes também se potencializa. A capacidade de potencial para conseguir clientes e novas áreas profissionais também se amplia.

Na hora de procurar resolver problemas, criar soluções, aplicações novas ao trabalho, são duas, três ou quatro cabeças pensando ao mesmo tempo, cada uma podendo enxergar soluções em uma determinada área, enquanto que sozinho, você levaria muito mais tempo para ter resultados semelhantes.

Até na hora da dificuldade as pessoas que estão unidas conseguem focar melhor em ações para que a dificuldade acabe mais rápido, ou pelo menos diminua. Uma pessoa consegue ajudar outra a recobrar o ânimo nos momentos difíceis. Uma vez que você esteja sozinho, na hora da dificuldade, se você entrar em depressão, só ira sair a custa de muito esforço análise e remédio.

Trabalho em grupo força as pessoas a pensarem em grupo. Força as pessoas a procurarem soluções inclusivas, aonde os demais membros da equipe também participem, colaborem.

A união, em resumo, potencializa em termos de qualidade, rapidez, quantidade, poder de resposta, criatividade, evolução e aprendizado.

A gente costuma achar que tudo isso é perda de tempo, eu já vi muita gente que não estava disposta a se unir, não estava disposta a encontrar novas saídas, não estava disposta a aprender a conviver com a diversidade e a equilibrar seus interesses afim de trabalhar para o grupo e são pessoas que a anos estão com o mesmo trabalho, a mesma dificuldade, os mesmos clientes, reclamam das mesmas coisas, encontram as mesmas dificuldades em perceber uma saída profissional e não demonstram quase nenhum sinal de evolução, em nenhum ponto de vista.

Eu acho ridículo ter que escrever esse tipo de coisa, pois na minha cabeça tudo isso deveria ser de conhecimento de todos.

Eu conheço pessoas que a dois ou três anos atrás reclamavam das dificuldades e eu cheguei a propor uma união. Não deu certo, não aceitaram e por incrível que pareça, hoje em dia nas conversas que rolam, essas pessoas reclamam exatamente das mesmas coisas que reclamavam a dois, três anos atrás, ou seja, o tempo passa e nada mudou.

Agora, o pessoal diz que é preciso haver organização, uma Abipro organizada, com gente participando, pagando anuidade ou mensalidade.

Eu pergunto: como é que vocês acham que os ilustradores irão participar de uma associação, tocar assuntos complexos, discutir soluções, propostas, pensar no coletivo, se unir, se eles não fazem isso no seu dia a dia? Como acreditar que a união pode ajudar no macro, se não acreditamos em união no micro?

O problema quando se fala de reconhecimento, LDA, ABIPRO, união, associação é que NADA disso irá mudar enquanto o ilustrador não se melhorar.

Enquanto NÓS pensarmos da maneira como pensamos, enquanto nós não nos esforçarmos para ser melhor do que aquilo que somos atualmente, TODO esforço irá escoar pelo ralo.

Precisamos nos unir, desde o ambiente de trabalho no dia a dia, precisamos cooperar, primeiro nas pequenas coisas, admitir que estamos deixando de fazer a nossa lição de casa, estamos deixando de tornarmos empresas, de termos estúdios com endereço comercial, em procurar formar uma equipe, em ampliar nossas opções profissionais, estamos deixando de puxar a responsabilidade para nós e caminharmos sem olhar pra trás. Precisamos deixar de sermos bunda moles. Quem tem medo de viver, então se mata! Não dá para viver eternamente se negando e evoluir.

É um direito ficarmos parado? É um direito querer ser um profissional isolado? Não se unir?

É.

Só que tudo o que decidimos fazer ou não fazer na vida possui um resultado. Toda causa produz um efeito correspondente.

E o efeito do isolamento, da desunião, TODOS NÓS já conhecemos, que é exatamente isso que nós temos.

Se vocês quiserem continuar assim, tudo bem. Somos livres. Mas, de uma vez por todas, não nos iludamos que um dia a realidade de nossa profissão será diferente ou melhor do que a realidade que encaramos todos os dias se cada um de nós não estiver disposto a sermos diferentes e melhores.

26.8.10

Detalhes singelos sobre o Universo do Direito Autoral

Em meio as discussões sobre as possíveis mudanças na Lei de Direitos Autorais, um detalhe povoa a minha mente e me tira o sono: Os ilustradores sentem todo o santo dia que muito mais empresas pagam e tratam melhor e destinam mais trabalho para empresas que ilustram do que pessoas físicas que fazem ilustração, exceto as empresas que já tradicionalmente trabalham com ilustração, como por exemplo as editoras; sendo que um ilustrador, ao abrir uma empresa terá, obrigatoriamente que “abrir mão” de ser autor, porque não fazer com que, através da LDA, seja permitido ao ilustrador abrir uma empresa responsável por gerenciar seus direitos, como um empresa destinada a gerenciar os Direitos de Autor de seus sócios?

Aí que a coisa ferve.

Não existe, até o momento, NENHUMA argumentação capaz de rebater essa pergunta.

Ao levantar esse questionamento no grupo de representantes de associações que redigiram o material a ser entregue a um representante do Ministério da Cultura, a advogada do grupo respondeu a seguinte coisa:

“Para esclarecimento de todos, autor sempre é (e será) uma pessoa física, pois uma pessoa jurídica não cria nada. Não pode haver confusão entre autor e titularidade. Autor é toda pessoa física que cria algo e titularidade é aquele que detém os direitos sobre esse bem. Assim, no caso de uma ilustração, a autoria da obra sempre é de uma pessoa física, que poderá ser o titular ou não dos direitos sobre a obra que criou. Por que? Porque o autor, pessoa física, pode transmitir essa titularidade a uma outra pessoa física ou a uma pessoa jurídica.

O que está previsto na lei autoral vigente e no artigo 2 do Anteprojeto de alteração da lei autoral NAO DEVE SER ALTERADO OU ACRESCIDO, pois no caput do artigo 2, foi mencionada a pessoa física, que como criadora, é titular dos direitos autorais sobre a obra criada e quanto à pessoa jurídica, embora não seja criadora de uma obra intelectual, pode DETER A TITULARIDADE de uma obra, a qual se dá por meio de contrato de cessão de direitos e em conseqüência, como titular, gozará da mesma proteção que a lei outorga aos criadores de obras intelectuais,ou seja, será detentora de todos os direitos sobre essa obra, inclusive os autorais.”

Isso significa para mim, que uma grande empresa de comunicação pode através da cessão de direitos negociar o meu trabalho, mas eu não posso. Ou então eu terei que, a cada trabalho que eu fizer, redigir um contrato de cessão de direitos para a minha empresa dando a ela plenos poderes para negociar o meu trabalho.

Será que está escrito: Babaca na minha testa?

Se a cessão realmente for acatada pelo Minc, como a MINHA empresa poderá ter poderes para negociar os direitos do MEU trabalho?

Aliás, se eu posso ceder os direitos de meus trabalhos cedendo eles por contrato, cada vez que eu realizar um contrato, porquê não criar um mecanismo automático para isso, como uma empresa, com código CNAE que faça isso automaticamente?

Eu sou o banana da história?

Desde que a Lei de Direitos Autorais entrou em vigor, aliás, desde antes disso, as empresas contratam “empresas” para realizar seus trabalhos de ilustração, quadrinhos institucionais, etc.

Por que essas empresas contratam empresas?

Porque empresas emitem nota fiscal. Uma nota fiscal relativo a uma história em quadrinhos institucional que custou R$ 25.000,00 entra na contabilidade de uma empresa numa boa, como se fosse a compra de equipamentos, móveis, etc. é encarada como uma aquisição ou investimento da empresa em benefício próprio.

Agora, um autor não emite nota fiscal. Curioso é que até aonde eu sei o único imposto que um autor não paga é ISS. O fato de não pagar ISS ao meu ver não é justificativa para não emitir nota fiscal. Na verdade um autor não emite nota fiscal porque ele não pode ser empresa.

Aí a mesma empresa vai aceitar apenas um simples recibo no valor de R$ 25.000,00 pelo mesmo trabalho? alguém acha que uma empresa vai conseguir justificar junto ao seu departamento fiscal que torrou essa grana com uma pessoa física?

Ao querer que um ilustrador tome a atitude de bater o pé para que a cada grande projeto que ele puder pegar a empresa que o contrate aceite apenas um recibo de pessoa física está forçando o mesmo ilustrador a perder o trabalho e o cliente para sempre. Estamos forçando o mercado a ser cada vez menos profissional. Os ilustradores se restringirão a fazer trabalhinhos menores, consequentemente que paguem menos, não conseguir manter uma estrutura profissional muito especializada e retroagir todo o seu processo profissional. Não haverá mais estúdios de ilustração, com estagiário, assistente de arte, secretária, etc. Somente será viável ser ilustrador se o mesmo trabalhar dentro de casa.

Esse é o caminho do profissionalismo? Esse é o caminho que os ilustradores precisam para serem profissionais com mais preparo para atender o mercado? Esse é o perfil que as empresas que contratam serviços de ilustração precisam e se sentem mais confortável de contratar um ilustrador?

Existe uma coisa chamada evolução. E o sistema adotado e pregado por advogados, juristas e “especialistas” na LDA, mas que não vivem dela, incentiva justamente o contrário.

Como querer que profissionais como nós sejamos cada vez mais profissionais, cada vez mais preparados, cada vez mais especializados se a principal forma de incentivar esse aumento de profissionalismo que é permitindo que autores abram empresas para gerenciar os direitos autorais de seus trabalhos de maneira que essa possibilidade não seja repleta de burocracia não é sequer levada em conta?

Agora, outra coisa que me tira o sono: por que uma grande rede de televisão pode negociar os direitos autorais de minhas obras e eu não posso ter uma empresa para isso?

Por que um grande grupo editorial pode negociar os meus direitos autorais e eu não posso ter uma empresa para isso?

Por que uma empresa de grande destaque no mercado de entretenimento tem poder para negociar as minhas obras e eu não posso?

Por que empresas que não tenham sequer sócios que sejam autores pode negociar direitos autorais e eu não posso ser sócio de uma empresa que negocie apenas os MEUS direitos autorais?

Será que o meu ponto de vista é absurdo?

Será que eu estou criando uma tempestade num copo d'água?

Por favor, se você que ler esse meu texto concordar ao todo ou em partes com as meus questionamentos, eu peço, encarecidamente que não deixe essa discussão morrer.

Continue a questionar, comigo e com outras pessoas, porque é de extrema importância que esse vácuo possa ser devidamente preenchido. Toda questão que não seja devidamente esclarecida pode ser utilizada contra o nosso benefício.

Nossos clientes poderiam utilizar os nossos trabalhos com muito mais qualidade se pudermos trabalhar como autores e empresas, poderíamos nos aprimorar em desenvolver soluções mais completas, trabalhos mais bem acabados não só em termos técnicos, artísticos, mas também mercadológicos, poderíamos desenvolver trabalhos mais especializados em questões pontuais de empresas e em questões pontuais para a sociedade.

Será que manter uma coisa por um princípio lógico que na prática já não se insere no dia a dia da maior parte dos ilustradores e que impede a capacidade de evolução de nossos profissionais seria legítimo?

25.8.10

LDA e o nosso futuro como autores

Nessa semana temos o dever de consciência de focar as nossas atenções para algo muito raro, talvez nunca na história do Brasil houve algo similar e que influencia diretamente não somente ilustradores, mas também outros tipos de artistas, como escritores, músicos, compositores, etc. que é a possibilidade de influenciar a modificação da Lei de Direitos Autorais do Brasil.

Sabemos e sentimos na pele de alguma maneira que vivemos em um país aonde quase sempre as cartas já foram marcadas para que grupos de possuidores de um determinado poder perpetuem seu poder e ganhem com essa perpetuação sobre a energia de outras pessoas, mesmo quando essa outra pessoa seja detentora de criatividade e capacidade acima do comum.

Sabemos também que a atual Lei de Direitos Autorais, embora seja justa, contém uma falha prática que permite que grande grupos de comunicação se apropriem do trabalho de artistas inexperientes ou necessitados em conseguir trabalho ou divulgar sua arte através da sessão total por tempo indeterminado de sua obra, podendo assim ganhar inúmeras vezes sobre o trabalho do autor sem precisar repassar qualquer quantia ao verdadeira merecedor do trabalho e sem sequer consultar ao autor sobre a forma como será explorada a sua obra.

Paradoxalmente a nossa atual lei não permite de maneira alguma que nós, que trabalhamos criando e desenvolvendo arte, entretenimento e cultura possamos ter um empresa própria para gerenciar os nossos direitos de autor.

Segundo o meu ponto de vista esses são os dois principais problemas da LDA e vejo que o momento permite que possamos, caso cada um de nós entendamos ser de nosso interesse e para nosso benefício nos manifestarmos, solicitarmos, reivindicarmos mudanças que atendam aos nosso interesses e nos protejam garantindo que cada ilustrador, quadrinhista, cartunista, escritor, roteirista, compositor, arranjador ou produtor possa, caso em algum momento de sua vida crie uma obra de grande destaque, garantir que possa ele ter seu sustento garantido como forma objetiva e material de reconhecimento pelo seu mérito.

Devemos estarmos atentos a duas coisas nesse momento:

- A primeira é o endereço eletrônico da proposta do Ministério da Cultura de Modificação da Lei de Direitos Autorais, lendo, conhecendo a nova proposta, sugerindo modificações que visem beneficiar a nossa profissão e apoiando as propostas existentes que sejam a nosso favor. O endereço do site é: http://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral/

- A segunda coisa que precisamos fazer é reservar a manhã de sexta feira, 27 de Agosto para, às 9h00 estarmos todos presentes no Senac da Lapa, na Rua Scipião, 67, participando do evento que está marcado para ser a entrega do documento final de inúmeras entidade representantes de artistas visuais: ABIPRO, SIB, ACB, AEL-IJ, CEBEC, APROARTES e Sindicato dos Artistas Plásticos junto ao MinC.

Nosso foco principal é extinguir definitivamente a cessão total de direitos. Se você concordar com nosso ponto de vista, eu peço que se junte a nós.

Precisamos mostrar que nossos Direitos são apoiados pelos nosso profissionais e pelas pessoas que entendem que o autor precisa ser devidamente valorizado e protegido, para que a cultura de nosso país cresça e auxilie o surgimento de uma nação mais justa, culta, íntegra, com oportunidade para todos e com qualidade daquilo que se produz também culturalmente.

Se quiser, envie esse texto para quantas pessoas quiser!

Reserve a manhã dessa sexta-feira para uma boa causa, A cultura de um país inteiro agradece.

18.8.10

Para não fazer a bola da regulamentação cair

É fácil perceber que um assunto não tem gás para ir muito à frente, não porque o assunto em si seja irrelevante, como uns até fazem crer, mas porque muitos encontram grandes dificuldades em manter um fio condutor lógico capaz de manter começo, meio e fim.

Quando falamos em regulamentação para ilustrador, o que se vê é um mar de pensamentos desconexos, aonde algo se percebe sobre quais seriam os primeiros passos a serem dados, e algo meio desfocado se percebe sobre qual seria o destino a se chegar.

Mas precisamos compreender que, para se chegar a uma destino é preciso ter uma trajetória, e o importante, como diz um amigo meu advogado, é o "iter".

Quando falamos a palavra "regulamentação" devemos antes de mais nada compreender que a palavra em si não possui um significado definido 100% para todas as pessoas, e é bastante fácil perceber isso, pois mesmo entre pessoas que pensam nesse termo alguns imaginam restringir o acesso de novatos a uma profissão, outros de formatar uma formação, outro de instituir uma tabela de preços.

Só que regulamentação significa: instituir um conjunto de regras. Acabei de ver no Dicionário.

Não significa obrigar necessariamente obrigar todo ilustrador a ter formação acadêmica, ou ter seu trabalho avaliado para conseguir um registro de ilustrador profissional.

Isso apenas aconteceria se um órgão competente, representante de ilustradores assim entender e tiver apoio de sua base para isso,

Mas vejam vocês que estamos tratando apenas do ponto final da discussão que é a tal regulamentação.

O problema é que existe o ponto inicial e é preciso compreender aonde ele se situa,

Imaginem vocês um garoto de seus 14 anos que gosta de desenhar e sonha trabalhar com desenho. O que ele deve fazer? Qual caminho ele tem pra seguir?

Se ele estudar numa escola de desenho, vai virar um profissional da área? Existe curso técnico? Existe curso superior? No Brasil inteiro?

Pra quem ele vai trabalhar? Ele vai ser contratado por quem? Existe estágio nessa área? Aonde? Para ser um profissional de ilustração a gente consegue ser um funcionário, ou somente como profissional liberal? Pra ser profissional liberal basta saber desenhar?

Mas então eis que temos listas de discussões, o Guia do Ilustrador e revistas em PDF sobre ilustração. Parece que todos os problemas serão sanados por esses recursos.

Serão?

Depois dessas grandes conquistas, houve aumento no nível do técnico médio do trabalho dos ilustradores no Brasil? Houve aumento do salário médio dos ilustradores no Brasil? Houve um melhor direcionamento em termos de absorver novos ilustradores no Brasil? A concorrência entre profissionais se tornou maior ou menor? Diminuíram as ofertas injustas de trabalho de ilustração no país?

A resposta é uma só: ninguém sabe.

Pior do que se a resposta fosse um simples "não". A resposta é: num sei. Ninguém sabe e qualquer que seja a resposta tenham certeza de que tudo não passa de especulação. Sabem por quê? Por que não existe uma única forma de se medir isso.

Portanto, para o mercado ter uma direção é preciso haver uma forma de se medir, se se fazer estimativas, cálculos, pesquisas e montar o panorama profissional de nossa área, para depois, ao se medir (mesmo que os parâmetros de medição sejam imperfeitos) traçar objetivos para conseguir através dos mesmos parâmetros numéricos perceber indicativos provando que as ações tomadas surtem efeitos positivos.

Isso é o que toda empresa faz, o IBGE faz isso, o IBOPE faz isso, a Datafolha faz isso, mas ilustrador não faz.

Por que ilustrador não faz? Porque isso não é papel para ser feito por UM ilustrador, nem por UMA lista de discussão, é para ser feito por um órgão que tenha como objetivo coletar informações sobre a realidade de nossa profissão, mapear o panorama da nossa realidade e discutir ações capazes de fazer com que o panorama possa melhorar com o tempo.

Pra mim, isso já é um passo dado no sentido de uma regulamentação.

Mas para isso, é preciso haver união e não pessoas que apenas questionem, discutam e discordem. Enquanto não houver um meio, mesmo que imperfeito de auferir o panorama de nossos profissional todo e qualquer discurso sobre conquistas é mera propaganda infundada.

É preciso haver união, e acima de tudo é preciso haver um órgão que se responsabilize, dentre outras coisas, por isso.

Quando eu estava a frente da Abipro, eu pude na época criar alguns gráficos medindo o grau de satisfação, expectativas e direcionamentos entre os profissionais de nossa área, tanto é que eu cheguei até mesmo a apresentar esses gráficos em palestras. Embora as pesquisas fossem falhas, eu mesmo comecei aos poucos a perceber um pouco o panorama de nossa profissão nesse país todo.

Muito do que eu percebi eu inclusive escrevi na mensagem anterior sobre o assunto, mas existem peculiaridade sobre nosso profissionais e principalmente sobre nossos profissionais iniciantes que vão além daquilo que eu já havia escrito, tanto em listas de discussões quanto no meu blog.

Por exemplo: existe um expoente crescimento de ilustradores entrando no mercado, embora os clientes para as ilustrações seja, no ponto de vista de todos, apenas editoras, agências e produtoras, e essas empresas não crescem na mesma proporção em que cresce o número de ilustradores no mercado. Os ilustradores acreditam haver espaço para eles apenas nos grandes centros urbanos do país, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Tudo isso faz com que a profissão sinta uma tendência de pessimismo pois, esses dois centros urbanos precisam absorver o pais inteiro.

No entanto as empresas de comunicação, nossos clientes tradicionais não existem somente nesses dois centros, e os profissionais de ilustração precisam dar valor aos clientes locais. É muito fácil a gente ver as pessoas escrevendo coisas como: na minha cidade os clientes são tudo gente com cabecinha fechada,,, mas você como profissional de sua região, será que também não tem a sua cabecinha fechada? Se um cliente de São Paulo te contratar você faz, refaz, refaz de novo, serve cafezinho, manda link do seu site, envia cartão de natal, trata o cliente que é um mimo só, mas para o cliente da sua cidade você trata como se fosse um fardo. E quer ser tratado pelo cliente de sua cidade como?

Para ser valorizado é preciso valorizar. É preciso descentralizar. É preciso que os profissionais do nordeste trabalhem para empresas do nordeste, que profissionais do sul trabalhem para empresas do sul, que profissionais no centro-oeste trabalhem para empresas do centro-oeste.

Ah, mas no Centro-oeste tem pouco jornal, revista e agência. Mas tem muito o quê aí, afinal de contas? Tem muita agroindústria, fazendeiro... Então os profissionais dessa região precisam aprender a direcionar o seu trabalho para essa área. Simples assim. Ninguém vai reinventar a roda, só vai ter o bom senso de fazer algo que na minha cabeça é obvio.

No Nordeste também não tem tanta agência e nem editora... mas tem o quê? Tem bastante turista, tem hotel... Eu acho que não é preciso saber para qual setor a profissão precisa aprender a se direcionar, né?

Tem um grande amigo meu do nordeste e que vira e mexe a gente conversa sobre as dificuldades que ele tem aonde ele vive, e numa dessas conversas ele me disse que lá tinha turista para caramba, mas vivia brigando com cliente que não pagava, não dava valor pro trabalho dele e tal... Aí eu perguntei: e turista paga bem? E ele disse: paga né, mas eu não faço trabalho pra turista... Na hora eu emendei: Por que você não faz? Se é quem paga bem e tem um monte aí? Vai ficar até quanto perdendo seu tempo e sua saúde com cliente que paga mal? Aí deu um estalo no cara! Começou a desenvolver um trabalho de caricatura e retrato parecido com os lambe-lambes que são muito comuns no interior do nordeste, só que tiram foto. Ele ainda foi absorvendo no trabalho dele elementos visuais característicos da xilogravuras dos cordéis nordestinos e o resultado ficou sensacional!

O lance é ter cabeça e perceber o mundo a sua volta e não ficar sonhando com o que não existe, a oportunidade de se realizar profissionalmente pode estar nas características de sua região. Isso é uma coisa que uma associação poderia muito bem orientar. E deveria. Isso é regulamentar.

Se nos Estados Unidos os ilustradores da costa leste trabalham para o mercado de cinema enquanto que na costa oeste trabalham para propaganda, isso é uma dica que lá eles são o que são porque seus profissionais perceberam que não se rema contra a maré.

Aí tem gente aqui no Brasil que quer fazer quadrinhos. Qual a porcentagem da população brasileira lê quadrinhos? 0,1%? 0,01%? Tudo bem nem eu sei, mas sei que é muito pouca gente, disso eu tenho certeza, ninguém da minha família e amigos lêem quadrinhos. Tá bom, um amigo meu lê. Mas vamos acordar. Vocês não percebem que fazer quadrinhos no Brasil é um mal negócio? Não tem público...

Se você quiser, pode criar algum mecanismo que fomente a leitura de quadrinhos no Brasil, legal, é preciso ter números, criar algo com esse objetivo, criar uma meta e um prazo para essa meta ser cumprida. É assim que se faz.

Pode ser que a meta não seja alcançada, mas é assim que se faz.

Esse tipo de coisa é uma pequena parte de exemplos de se colocar ordem no galinheiro, como também formatar e orientar em como ter uma estrutura pequena mediana e grande de trabalho na nossa área, e assim por diante.

Aos poucos, com as coisas sendo colocadas em ordem, o grau e a probabilidade das injustiças ocorrerem, assim como a melhora na remuneração, diminuição da concorrência desleal irão se abrandando. Agora isso não é coisa que se consegue com um lista de discussão e nem com um guia do ilustrador.

É preciso mais do que isso, mas é preciso haver união repito novamente, seriedade, consciência de grupo, consciência global, visão estratégica, tudo isso concentrado em um órgão, seja ele uma associação, clube de ilustradores, que possa ser encarado por todos como uma casa que acolhe a todos indiscriminadamente e não como um opositor, um inimigo a ser batido, não como um lugar feito para que uns e outros sejam endeusados.

As várias iniciativas, como SIB, ABIPRO, Bistecão, Ilustragrupo, ImagoDays, ACB, GRAFAR, UNIC, grandes comunidades de desenhistas na net, devem aprender a ser fraternas, encontrarem seus caminhos , se unir, se ajudarem mutuamente, fraternalmente e entenderem de uma vez por todas, ninguém é inimigo de ninguém, não somos opositores uns dos outros, temos objetivos em comum e precisamos fazer com que haja espaço para todos, todos os profissionais tenham seu espaço, mas para isso é preciso ter regras justas e claras, e mesmo que essas regras não sejam uma tabela de preços ou um registro para poder trabalhar como ilustrador, e isso, mesmo assim já é uma regulamentação.

17.8.10

Para ser contratado

Muitas vezes nós recebemos e-mails de iniciantes querendo ser da nossa equipe, procurando emprego, estágio, freelancer, ou qualquer coisa do tipo.

Muitas pessoas nos procuram com links bem legais, sites organizados, bonitos e funcionais, ou blogs transados de visual interessante. Alguns mandam links de páginas de comunidade de arte que demosntram que esse povo todo está ligado, antenado no que rola em termos de arte.

Existe muita gente que envia trabalhos realmente impressionantes, em estilos e linhas muito bem resolvidas, e outras pessoas que logicamente demonstram precisar de algum amadurecimento para se lançar no mercado.

Os últimos descritos acima são foco de muito texto que visa orientar novatos na internet, e eu mesmo já escrevi muita coisa voltada para eles e pretendo continuar escrevendo ainda mais coisas para orientar.

No entanto o meu foco hoje vai para esse primeiro grupo,

São pessoas que já tiveram alguma experiência profissional, mas que sente grande dificuldade em se estabelecer no mercado por não achar uma oferta tão vasta assim para trabalhar.

Eu já vi muita gente com um desenho de tirar o fôlego, muito caprichado, muito bem resolvido, algumas ilustrações tão vivas em impressionantes que chega a dar a impressão que esse pessoal não precisaria vir bater na nossa porta para procurar trabalho.

Só que, paralelamente a essa qualidade toda, quando a gente vai analisar de maneira mais funcional, eu mesmo percebo um grande problema: são estilos muito bem resolvidos, mas estilos definidos necessitam de demanda.

Sim, o fato de você ter encontrado um estilo, principalmente se o seu estilo for muito característico pode ser um grande tiro no pé na hora de procurar trabalho.

Eu explicarei.

Você ficou muito tempo decidindo uma linha, uma técnica, uma forma de resolver a questão de se desenhar e ter uma identidade. até que achou algo bem diferente daquilo que todo mundo faz. Como "artista" você fez sua licão de casa perfeitamente, mas como profissional você deixou muita coisa de lado.

Em primeiro lugar, se aquilo que você faz é diferente, como você quer que alguém queira consumir aquilo que não conhece, e por consequencia não precisa?

Não dá para eu, como um profissional de um estúdio de ilustração pegar um iniciante que desenvolveu "um" estilo marcante e colocar no portfolio do meu estúdio para vender o trabalho, se o mercado não conhece o estilo, e ninguém, absolutamente ninguém sabe se o mercado irá absorver esse estilo.

Eu, pessoalmente defendo a idéia de que o estilo é o resultado da formação, mais a necessidade de mercado.

Esse é o ponto nevrálgico em nossa profissão. Você sabe se o estilo que você está procurando desenvolver tem alguma relação com o estilo que os clientes ou o consumidor quer ou procura?

Curiosamente, 100% desses profissionais de trabalhos impressionantes são baseados em desenhos cômicos, cartuns, desenhos infantis, etc. Não apareceu até hoje para mim um único iniciante na profissão que dominasse o desenho realista.

Eu estou me referindo ao desenho realista mesmo, aquele que é uma cópia daquilo que se vê. Hoje em dia você até ve um ou outro que domina com uma certa destresa técnicas de um pretenso desenho realista que não é, nada mais, nada menos do que uma cópia de estilização utilizada em histórias em quadrinhos norte americanas.

A anatomia é completamente distorcida. Detalhes são desenhados minuciosamente com soluções gráficas proveniente das técnicas de impressão em preto e branco antigas aonde os trabalhos eram finalizados com nankim. E aí algumas peculiaridades foram desenvolvidas para poder se trabalhar com alguma autonomia no nankim, pincel, pena, para uma impressão tecnicamente bastante primária.

Hoje em dia, com a tecnologia existe a possibilidade de se absorver na ilustração realista toas as nuances presentes nas escolas de pintura, desde o renascimento até o realismo, mas pelo menos no Brasil a impressão que eu tenho é que os novatos são analfabetos dessa formação.

Os nossos iniciantes gostam de quadrinhos da Marvel, DC, mangá, desenhos da Pixar, curtem de repente um Robert Crumb, alguns mais descolados também se influenciam por Moebius, Manara e desenhos que passam no Cartoon Network e Nickelodeon, e isso é tudo.

99,999% de tudo oque se procura reproduzir no Brasil por iniciantes nas escolas de desenho é a cópia de uma demanda de ordem mundial, mas com pouca demanta interna.

Quando esse povo todo se forma, vai desenvolver estilos derivados dessas influências. Acontece que toda essa influência já é um reprocessamento de informações gráficas anteriores.

Para se focar profissionalmente é preciso dominar aquilo que vem antes de toda essa gama de trabalhos do mercado mundial, e o que vem antes de tudo isso?

O desenho classico.

A formação clássica de desenho é fundamental, pois através dos cânones, proporções criteriosas, regras e fundamentos rígidos e que exigem muita disciplina existe a possibilidade de se fazer absolutamente tudo em termos de desenho.

Não existe uma única linguagem, uma única técnica, um único estilo que não possa ser resultante dessa formação.

Eu sei que existem estilos de trabalho que não exigem necessariamente esse tipo de formação.

Só que essa formação, desde que sólida, permite ao iniciante ter uma pasta com domínio de, no mínimo, desenho realista.

Uma pessoa com essa formação pode não ter um portfolio tão modernoso, ou trabalhos estilosos tão impressionantes logo de cara, mas demonstra uma qualidade que para um profissional iniciante é fundamental: potencial.

Quando uma empresa ou um estúdio analisa o portfolio de um profissional iniciante, o que se busca não é um profissional formado e maduro com controle absoluto do seu trabalho, mas um iniciante com potencial de crescimento, e esse profissional é demonstrado numa formação sólida que possibilite ao seu contratador direcionar o iniciante para uma técnica ou estilo conforme a demanda for aparecendo no mercado.

Essa é a grande diferença.

Nós não decidimos e não podemos dicidir como ditadores o que os nosso clientes irão comprar em termos de trabalho, mas precisamos observar as necessidades que eles tem no mercado para oferecer em termos de estilo e técnica o que pode atender suas necessidades.

Eu, me colocando no lugar dos profissionais que já investiram treinamento, estudo e tempo para amadurecer seus estilos sei o quanto é desanimador ler algo como o que eu acabei de escrever, mas o mundo não vai ter dó da gente ou contratar o nosso trabalho por compaixão, para acertar é preciso tentar, e, algumas vezes, errar. Só que é preciso não desistir e reiniciar quantas vezes forem necessárias.

Eu vejo portfolios com inúmeros estilos cômicos e infantis, uma ora feitos no photoshop, outra hora feito só no desenho vetorial, algumas vezes misturando essas duas linguagens, em outras vezes desenhados no lápis, canetinha, pincel, pena, gravura, etc.

Como alguém que pode contratar uma pessoa, me sentiria muito mais confiançal vendo um protfolio com desenhos realistas bem feitos, no lápis, depois finalizados, seja numa aquarela, no photoshop ou no vetor, numa gravura, com pena e alguns exemplos de desenhos cômicos, feitos uma hora no hpotoshop ou no vetor, usados em técnicas tradicionais. Uma pasta assim demonstra que o iniciante tem uma formação básica, já está tentando descobrir novas linguagens e que tem potencial para desenhar em outros estilos.

Outra coisa também bastante um em portoflios já "fechados" é que podem dar ao contratante a impressão de que você não é maleável, só faz "aquilo" e não aceita negociar algo diferente.

Um portfolio, seja digital ou pasta aonde a pessoa demostre que um estilo é preponderante e fechado não me passa a segurança que eu possa contratar a pessoa e pedir a ela fazer trabalhos que não sejam parecidos com aquilo que se encontra no seu portfolio e nem eu e nenhum outro cliente meu quer, quando precisa de um trabalho, ficar arriscando ter dor de cabeça ou não.

Contratar um ilustrador iniciante com um estilo determinado, por um estúdio significa apostar que haja demanda naquele estilo. Isso significa que a probabilidade de um ilustrador iniciante com essas características ser contratado é muito pequena.

Eu espero que esse texto sirva de resposta a inúmeros iniciante que já nos procuraram anteriormente e nós não respondemos. Eu nem teria o que dizer numa resposta a profissionais com esse perfil, pois eu sei que são pessoas que já caminharam um pouco, já iniciaram a sua caminhada profisisonal e não está exatamente no ponto zero, alguns não aceitam críticas contrárias, mesmo se for pensando em orientar. Eu somente gostaria que as palavras que eu coloquei nesse texto possam apenas direcionar alguns portfolios para uma tendência diferente da que eu venho percebendo atualmente.

16.8.10

Ainda sobre a regulamentação

Vira e meche nas comunidades, listas de discussão e rodinhas de profissionais volta o tema "regulamentação da profissão".

A um tempo atrás, vimos em alguns locais virtuais esse tema voltando, e parecia que enfim, as discussões iriam desencantar em alguma coisa.

Todos nós, (eu inclusive) sofremos de um grande mal, que é a falta de capacidade de manter o interesse em assuntos sérios entre nossos pares por muito tempo, com capacidade quase nula de levar um assunto sério a conclusões mais elaboradas.

Às vezes eu acho que sofremos de algum tipo de distúrbio de défict de atenção, mas o problema maior nem é esse, mas o fato de que esse problema não atinge 100% de nossos profissionais, eu mesmo já conheci muito ilustrador com um grau de lucidez capaz de fazer com que muito jurista, empresário e formador de opinião ficar boquiaberto. O problema é o restante de nossos pares parecem não perceber que existe alguém ao nosso lado com essa lucidez toda.

Uma coisa que também deve ser levada em consideração é que a capacidade racional de uma pessoa nem sempre é acompanhada pelo talento como artista, e tem muita gente que embora não tenha se destacado tanto como grandes gênios do traço são verdadeiras crânios no que diz respeito a forma de compreender o mundo a sua volta, o mercado que fazemos parte e capacidade de interagir no meio com domínio.

O problema é que nossos amigos de traço costumam ter ouvidos mais abertos para os ilustradores que tem o portfolio mais exuberante ou são mais bem sucedidos profissionalmente, e nem sempre um portfolio com trabalhos bonitos acompanham uma capacidade estratégica, visão panorâmica de uma situação ou lucidez tão apurada. Mesmo porque os profissionais mais bem sucedidos sentem bem menos motivos para desenvolverem sua capacidade de questionamento ou seu interesse por questionar e querer mudar as regras do jogo, uma vez que eles se adaptaram bem ao mundo como ele é, estão "ganhando" o jogo da vida com essas regras miseráveis que nós vivemos e não tem tanto interesse em mudar as regras.

Acho que todo mundo já viu em algum lugar a frase: em time que está ganhando não se mexe. Pois bem, os grandes espoentes de qualquer segmento são aqueles que melhor se adaptaram as regras do jogo, melhor porveito sabem tiras das peculiaridades, justas ou injustas dessa nossa vida e não sofrem na pele os desabores da dificuldade de se ajustar ao sistema.

Numa sociedade egocêntrica como a nossa, esse problema acaba muitas vezes se agravando mais ainda, pois existe um número muito grande de pessoas que olham apenas para si mesmo e não percebem que na mesma realidade em que vivem muita gente sofre, e sofre mais do que seria aceitável.

O que eu quero dizer é que somente tem interesse em mudar o mundo pessoas embuídas de um grande sentimento de altruísmo ou pessoas que não venceram na vida. Querer que um grande nome do mercado mude os rumos para beneficiar a todos é uma visão de mundo infantil, infelizmente, eles não entendem que o mercado precisa mudar.

Mesmo porque até mesmo as pessoas que se encontram na base da pirâmide profissional, quando, por algum motivo se vê em melhores condições de vida, automaticamente perdem interesse em querer que o sistema mude. e essa falta de interesse em mudanças costuma ser proporcional ao grau de adaptabilidade que a pessoa encontra, salvo excessões de pessoas com comportamento genuinamente altruísta.

Nosso mercado é bastante bagunçado, mas as pessoas que se adptaram a bagunça generalizada e tem bons clientes, pega bons trabalhos, não se sentem tão incomodadas com as injustiças características de nossa realidade. Algumas até mesmo podem acreditar que a desorganização profissional que atinge o restante é um bom negócio, pois permite que quem está no topo não precise se preocupar tanto em manter a sua liderança e hegemonia mercadológica. Vivemos num país aonde a camada dominante gosta de escarnecer daqueles que estão abaixo por sua ignorância e entendem que manter os que estão abaixo na ignorância em que se encontram irá permitir a perpetuação de seus domínios.

Não percebem que, na verdade acreditram ser eles mesmos pessoas de menor capacidade, pois todo aquele que reconhece em si uma superioridade na capacidade intelectual, moral e social não se importa em permitir os que estão abaixo de si ter acesso ao conhecimento, cultura e educação. A diferença é que aonde os que estão embaixo tem educação, cultura e conhecimento criam sociedades com menor grau de conflitos.

Vivemos num país aonde o nosso mercado, o de ilustração, sofre muito com uma grande série de problemas, temos uma sociedade que supervaloriza a tecnologia e menospreza a cultura, aonde as pessoas dão muita importância a rapidez com que uma coisa é feita ao invés de se importarem com a qualidade dessas mesmas coisas, existe um culto a facilidade e praticidade de maneira desmedida. Esses pontos são percebidos principalmente em meios de produção dinâmica, como uma espécia de reflexo da necessidade que temos de produzir coisas cada vez mais rápidas, mais simples, mais funcionais, diretas, e baratas.

Na ilustração, o que nos deparamos é com o reflexo dessa realidade. Hoje em dia é muito comum ver conflitos de prioridades, tanto entre clientes potenciais quanto entre profissonais de ilustração. Existem clientes que valorizam a qualidade acima de tudo, mas uma parcela muito grande é incapaz de perceber que à partir de um determinado padrão visual, existe a capacidade de se atingir uma qualidade muito maior. Muita gente acredita que chegando num ponto, o que houver à mais é desperdício, desperdício de informação visual, frescura, motivo apenas para aumentar custos.

Esse é um sintoma que não reflete simplesmente a desvalorização do ilustrador ou da ilustração, mas a popularização, a massificação da ilustração. Quando existiam meia dúzia de clientes para ilustração, também existiam meia dúzia de ilustradores. Essas empresas tinham demanda por importarem um sistema profissional de outros países que já tinham a cultura de ilustração, e exigia antes de mais nada qualidade, e quanto mais qualidade, melhor o pagamento. E essas empresas sabiam que qualidade gerava retorno financeiro na outra ponta.

O que aconteceu é que desde sempre a quantidade de ilustradores oferecendo seus trabalhos no mercado teve um crescimento maior do que a quantidade se trabalho de ilustração para ser feito, e segundo a premissa básica de que quanto maior a oferta, menor o custo, naturalmente o nosso trabalho foi perdendo valor de mercado.

Quando apareceu o computador permitindo a ilustração digital, a quantidade de clientes potenciais de ilustração aumentou esponencialmente, e uma quantidade de clientes que, ao contrário dos primeiros, nunca tiveram uma cultura de ilustração importada de lugar nenhum, e a ilustração se tornou um acessório. São empresas que nunca imaginaram pagar R$10.000,00 por um mascote, mas quer um mascote; nunca irá pagar um valor desses nem em equipamento, quanto mais em um mascote.

Junto com essa quantidade de clientes, aumentou e em número ainda maior a quantidade de pessoas que se tornaram ilustradores, em proporção ainda muito superior a quantidade de clientes. E curiosamente esse exército de ilustradores também não tinham uma cultura de ilustração, sua cultura é semelhante a cultura dos novos clientes. Dessa maneira a popularização da ilustração foi feita com a popularização do profisisonal em grau ainda maior. Em alguns anos, o número de profissionais em nossa área saltou vertiginosamente.

Grande parte desse salto também se deu pelo fato de que muitos mercados que podemos considerar periféricos se saturaram, como o mercado para Diretores de Arte nos anos 90 e de designers na primeira década de 2000. Os profissionais que tinham grande dificuldade de se encaixar em suas profissões originais viram no mercado de ilustração um terreno fértil. Atualmente uma pessoa com R$ 2.000,00 no bolso se encoraja em montar um esquema para trabalhar com ilustração. A uns dez anos atrás esse valor mínimo para ser um ilustrador bem básico corria por conta de uns R$ 5.000,00, a quinze anos esse valor mínimo já era por volta de R$15.000,00 e a vinte anos era algo em torno de R$ 30.000,00.

Pode parecer que esse tipo de coisa não tenha qualquer ligação com o tema, mas o baixo custo para uma pessoa ter um esquema físico minimo para trabalhar e um portfolio permite que mais pessoas ingressem no mercado. E quanto maior a oferta...

Agora, esse panorama pode parecer bastante desanimador a primeira vista, mas para que não se cumpra uma tendência de piora com o tempo, somente um caminho deve ser levado em consideração: a regulamentação.

Os problemas são reais e já existem no mercado, mas o maior problema gira em torno da diminuição da qualidade dos profissionais, em muitos pontos, e uma ação conjunta poderia antes de mais nada fortalecer a qualidade do ilustrador como profissional, para depois fortalecer as ações conjuntas dos ilustradores, resultando como consequência num mercado regenerado.

Isso significa que regulamentação não se reduz a haver um dia do Ilustrador, ou a se ter um código CNAE específico para ilustrador, ou haver uma formação superior regular no país, mas um conjunto de ações, aonde haja a possibilidade de, a cada passo, os profissionais serem melhor preparados e oferecer um produto final de qualidade que force o mercado a se corrigir, tornando ilustradores melhores preparados em empresas, que por sua vez permitam que iniciantes possam ter uma caminho natural de inserção no mercado e diminua a disparidade entre os profissionais. Hoje em dia existe tanta diferença em nossa profissão que você encontra ilustradores que trabalham no quarto dos fundos de casa concorrendo com ilustradores com endereço comercial fora de casa, secretária, office boy e tia do café.

Acontece que para chegarmos a uma mudança quais seriam os passos? Será que alguém já chegou a estudar o que seria necessário?

Eu, juntamente com um grupo muito bom, a algum tempo atrás, passamos meses e meses reunidos na pensando quais seriam esses passos.

Tudo começou quando eu fui convidador pelo ilustrador Grego a fazer alguma coisa que pudesse incitar as pessoas a trabalharem em prol de uma regulamentação. Procuramos alguns políticos e tivemos algumas orientações.

A primeira orientação que tivemos era que se somos profissionais de uma determinada área, para conseguirmos qualquer coisa a nosso favor, precisamos ter um organização legal. Seja uma sociedade, associação, clube, ou qualquer coisa que possa representar nosso grupo. Seria necessário que essa entidade tivesse o objetivo claro de buscar a regulamentação, pois ela, para existir precisaria de tempo e precisaria contar com pessoas focada no objetivo.

Criamos então o Dossiê do Ilustrador e aguardamos por mais de um ano até que percebêssemos que havia entre nossos pares uma quantidade suficiente de pessoas capazes de se focarem nesse objetivo para conseguir alguma coisa específica. Num momento em que acreditamos ser o ideal, tornamos público esse documento e pedimos que qualquer pessoas, empresa ou entidade de ilustradores que tivesse interesse em continuar a conversa nos procurar para que pudessemos discutir ações reais.

Algumas pessoas se juntaram a nós, e por uma grata surpresa, percebemos que muitas delas tinham uma capacidade enorme de auxiliar a essa empreitada como se já tivessem prontas para isso. Como nenhuma asociação na época se importou conosco, então decidimos criar uma associação que pudesse representar a todos os profissionais, e assim focar as atividades em nome dessa associação, aonde todos pudessem criar ações, iniciativas variadas, discussões, palestras, exposições, banco de dados, debates, parcerias e convênios, debaixo de uma bandeira só.

Por isso foi criada a ABIPRO, que tem como único e exclusivo objetivo ser o meio aonde será possivel haver as conquistas para a nossa regulamentação.

Nessa época sabíamos que apenas criar uma associação não bastava, era preciso que ela tivesse uma atividade constante, para que as pessoas associadas a ela se habituassem, com o tempo, a se sentirem parte de um corpo, pois para lutar em benefício de conquistas é preciso ter o apoio daqueles que procuramos representar.

Propusemos que tivéssemos um encontro informal entre os associados para que houvesse uma integração entre todos, que houvesse uma lista de discussão para ser o canal principal de troca de informações e aprendizado entre os associados. Propusemos um site repleto de informações para que o associado se sentisse parte de um grupo. Propussemos organizar exposições para que os associados pudessem mostrar seus trabalhos e para que houvessem oportunidades de discutir assuntos pontuais visando lá no fundo amadurecer os profissionais para a conquista daregulamentação.

Propusemos, que depois de se conseguir isso tudo, que pudéssemos reivindicar um Dia do Ilustrador, para como crupo ganharmos força e representatividade junto aos políticos para, com o aprendizado dessa experiência, podermos ter força para pedirmos o reconhecimento com código CNAE próprio e posteriormente, caso fosse entendido que seria realmente importante continuarmos até a regulamenteção definitiva, que ela fosse perseguida de maneira consciente.

No entanto, muita gente não acreditou em nós. Não nos compreenderam. Encontramos muitas pessoas que se colocaram como nosso inimigos. Acharam que a nossa intenção era rivalizar com a SIB, que a minha intenção era ter súditos e seguidores, que essa associação servisse a interesses pessoais, a satisfação de egos ou ao acumulo de poder e influência.

Muita gente combateu cada iniciativa como se fosse indispensável exterminar a capacidade dessa associação ter vida própria. Me desulpem vocês que pensaram sermos nós seus inimigos, mas você não conseguiram entender e eu muito imbecilmente não consegui me fazer entender.

Meu maior erro, no entanto foi o de estar a frente e não saber lidar com os obstáculos que apareceram, e de não ter o equilíbrio necessário, e até mesmo a malandragem para contentar a todos, a paciência para esperar o momento de realizar e a ponderação necessária para, em momentos extremos não jogar tudo para o alto.

Eu sei quanto eu ofendi as pessoas que estiveram ao meu lado e quanto eu, achando que estava sendo justo, fui injusto e somente peço a todos, não simplesmente perdão por também ter atrapalhado uma coisa que era para ser de benefício de todos, mas peço que, se alguém ainda hoje realmente quiser continuar a trilhar o caminho para a regulamentação, que utilize o instrumento que já foi feito para isso e está a mais de um ano parado, e se não for utilizado com esse propósito, não terá qualquer utilidade, pois não é propriedade de absolutamente ninguém e não foi criada para rivalizar e nem para excercer influência sobre ninguém.

Gostaria, no entanto de agradecer meus companheiros de jornada durante essa época: Grego, Tuco, Rice, Iriam, Silvana, Eldes, Mancuso, Paulo Borges, Henrique, Alcode, Faoza e outros companheiros que apareceram ao longo do tempo, dizer que sem vocês nada teria sido feito, pois eu mesmo pouco ou nada tenho ou tive de capacidade de realização e sinceramente dizer o quanto eu sinto por, pelo meu comportamento, ter afastado vocês do caminho que havíamos traçado desde o início e assumo a responsabilidade e a culpa de não termos conseguido o nosso intuito.

Em todo caso, quem quiser levar o idéia adiante, se quiser utilizar a Abipro para isso, deve fazer por uma razão lógica, mas se não quiser não precisa, mas vai ter que abrir outra associação. Em todo caso, todas essas pessoas que eu mencionei tem conhecimento de causa, sabem contribuir e podem ser de grande valia de todos.

Da minha parte, permanecerei ainda no meu canto e desejo à todos sucesso e que sejam bem sucedidos.

12.7.10

Ensaio sobre a cegueira politicamente correta

Outro dia, algumas pessoas estavam comentando sobre esse lance de politicamente correto.

Uma amiga que é professora havia dito que a orientação que se dá aos porfessores é que mesmo se um aluno estiver colocando fogo na sala de aula, que o professor, se tiver que repreender o aluno (como se houvesse outra opção) fizesse à distância do aluno e com as mãos para trás, como se elas estivessem amarradas porque algum aluno poderia achar que o professor agrediu o anjinho que foi repreendido, sem contar que se algum aluno se sentir ofendido porque um professor por exemplo usou a palavra "negro" ao invés de afro brasileiro, o mesmo professor pode ser proibido de dar aula pra sempre.

Eu sei que muitas pessoas de determinadas raças, origens sofrem e sofreram muito na vida, mas parece que essa orientação politicamente correta está exagerada.

Esse negócio de politicamente correto é um câncer mesmo!

Toda a vez que eu vejo uma pessoa chamando alguém de "afro brasileiro" ou "portador de necessidades especiais" e outras enrolações eu tenho a nítida impressão de que a pessoa está usando esses termos da maneira mais pejorativa que poderia existir até mesmo pela inflexão de voz, enquanto que eu já cansei de ouvir as pessoas chamarem os outros de velho, neguinho, tio, careca, aleijado, ceguinho com uma inflexão de voz divertida, amistosa, até mesmo carinhosa.

Sabe, isso me parece uma forma das pessoas taparem o sol com a peneira. Uma pessoa nasce negra e é negra, mas pode não se sentir bem sendo chamada de negra, mas isso não é ofensa necessariamente. Alguém já parou pra pensar que pode até mesmo ser uma forma de negação e não aceitação da pessoa com relação a ela mesma?

Um cara que é gordo desde pequeno, sempre foi chamado de gordo, não se sentirá ofendido por ser gordo, mas porque ao se olhar no espelho, vê uma figura que não corresponde ao que ele acredita ser ele mesmo. Aí então o cara começa a fazer regime, praticar esporte, e tudo para emagrecer. Sofre igual a um condenado e perde 15 kilos, passa de 110 Kilos para 95 Kilos, por exemplo.

Aí ele vai pra uma festa e alguém chama o cara de gordo! O cara vai ficar pistola da vida, porque se esforçou por seis meses e não deixou de ser gordo. Só que ele não se sente gordo. Mas ele é gordo. E o fato de você chamar o cara de gordo vira uma ofensa pro cara porque o cara pode ter passado a vida toda dele lutando contra a balança. Sabe por que? Porque ele não queria ser considerado um cara lerdo, bonachão, sossegado, preguiçoso, folgado. E todo mundo acha que gordo é assim.

Imagine um cara que sempre foi baixinho e mirrado, desde pequeno todo mundo tira sarro dele, folga com o cara porque acha ele baixinho, fracote, etc. O cara passa a vida toda dele procurando fazer exercício para crescer, ganhar mais corpo. Só que o cara sempre foi o baixo da turma. As meninas mais bonitas não vão querer namorar ele, só irão dar bola pro cara se ele contar piada nas festinhas, todo mundo acha que o baixinho é palhaço, encrenqueiro, pentelho, irritadinho. Aí se o cara ficar irritado com alguma coisa, todo mundo já diz: lá vem o baixinho encrenqueiro! Só que o cara sabe que não é apenas um baixinho, piadista e encrenqueiro. Mas parece que todo mundo só enxerga ele como sendo assim. O cara vai estudar, trabalha pra caramba, vai ser atleta, tudo para montar uma imagem de esportista, cara inteligente. Aí chega alguém e chama ele de "baixinho" ferrou! O cara mostra para ele tudo o que ele passou a vida toda tentando não ser por fora, porque ele sabe que não é por dentro.

Só que por for a o cara é assim, e não tem nada no mundo que vai mudar isso.

Mesma coisa acontece com quem é preto, japonês, branco demais, magrelo ou careca. As pessoas ao se olharem no espelho enxergam uma "tipo" aparente de pessoa, que passa uma imagem, mas sabe que não se limita a ser apenas isso que sua aparência mostra.

Muita gente briga com isso até o último dia de sua vida. Alguns conseguem modificar sua aparência em alguma coisa, distrair a atenção com outra característica. Outros aceitam a sua aparência e vivem de maneira mais relaxada.

Mas nada disso vai acabar com o preconceito, nem mudar os nomes que as pessoas usam para classificar a aparência dessas pessoas. Seria muito mais útil para mudar a imagem que se faz de uma pessoa pelo aspecto físico se as pessoas procurassem não ter uma reação tão previsível quando alguém nota sua aparência física e tentarem viver de maneira mais natural independente do sua aparência.

Aí vem um monte de gente que tem essa questão da aparência mal resolvida e começa a querer que uma lei obrigue as outras pessoas a não falarem uma palavrinha que a ofende. Só que o problema nem está em quem fala do outro e nem na palavra, tá dentro da cabeça do cidadão.

Eu já fui chamado de tudo nessa vida, de moleque (sofri muito por pessoas que não confiavam em mim por acharem que eu tinha cara de criança e devia ser irresponsável, hoje em dia fico feliz pelos primeiros cabelos brancos) já fui chamado de tio (achei engraçado, enfim havia envelhecido), de quatro olho, de nerd, de babaca, de gordo, de magrelo, de cabeludo (numa época eu era magrelo e cabeludo e todo mundo na rua achava que eu era maconheiro).

Eu vejo a minha irmã, por exemplo, que sempre foi gorda, brigou anos a fio com a balança, mas chamava todo mundo de feito, preto, narigudo, magrelo e dava risada na cara das pessoas dizendo "e o cara é mesmo, nasceu assim...", só que bastava que alguém a chamasse de "gorda" pra que ela ficasse ofendidíssima, aí os outros eram mal educados, grossos...

Hoje em dia não chama mais ninguém de coisa alguma, mas também tem mais de 100 Kilos, mas se aceitou. E nunca mais ficou brava quando alguém chamou ela de gorda. Eu já vi ela dizendo que é gorda mas é feliz, rindo feliz da vida!

O politicamente correto, ao meu ver é uma forma de fazer com que pessoas mal resolvidas com a sua aparência não precisem se resolver duas questões íntimas e que os outros que não tem nada a ver com isso paguem o pato.

Aí entram com leis e o escambau baseado em algo totalmente fora de lógica e começa a se criar essa cultura imbecil de que se você fizer tal coisa, a criança vai ficar traumatizada. Se voc6e falar auto traumatiza, se levantar a mão traumatiza, se chamar o moleque capeta de capeta, traumatiza. O moleque pode tocar fogo na escola, mas se o professor levantar a voz e apontar o dedo na cara do moleque, a culpa é do professor que vai traumatizar o aluno.

A vida traumatiza!

Quem quiser passar por essa vida sem adquirir nenhum trauma que faça o favor de se suicidar e deixar a vida pras pessoas que tem a hombridade e a responsabilidade de viver com tudo de bom e de ruim que a vida trás pra todo mundo.

A vida não é um conto de fadas, não é um mundinho encantado.

Mas todas essas coisas que nos agridem só nos fazem bem no final das contas, todos saímos mais fortes e preparados para o mundo. E agora, e essa garotada que ninguém pode relar a mão? Essa mesma molecada que sai botando fogo em empregada doméstica em ponto de ônibus para se divertir, o que esperar dessa geração politicamente correta?

Eles estão demonstrando ser mais evoluídos ou humanos do que a nossa geração?

15.6.10

Somos vítimas?

Existe uma cultura impregnada em nosso meio quase que irracional de reclamar dos problemas inerentes ao nosso mercado, dizendo que o mercado que fazemos parte é ruim, mesmo que paradoxalmente quando esses mesmos problemas são expostos para uma quantidade maior de pessoas igualmente se percebe a cultura de se omitir ou esconder o problema, como se o fato de não os enumerar perante outras pessoas pudesse fazer com que os problemas deixem existir ou se ao expor esses problemas para mais pessoas os problemas possam aumentar.

No entanto os profissionais, sejam eles iniciantes ou experientes se esquecem de perceber um detalhe. Um problema, se existir é porque teve uma causa, se o problema persistir é porque a causa igualmente está persistindo e se não houver problema algum é porque não existe causa.

Essa frase acima parece bastante infantil, quase que uma frase de efeito e sem sentido. No entanto é uma frase que encerra alguma sabedoria, e, precisamos ter a humildade de perceber que sabedoria não anda sendo o forte do profissional de ilustração há algum tempo.

Vou tentar ser mais específico ao invés de ficar jogando palavras ao vento.

Vivemos com inúmeros problemas no que diz respeito a nossa realidade profissional, eu vou tentar apontar alguns:
- Excesso de profissionais;
- Valores baixos sendo pago;
- Presença de muitos profissionais com baixo nível;
- Quantidade pequena de clientes em potencial;
- Não reconhecimento da profissão;
- Falta de um curso de uma formação satisfatória de abrangência nacional;
- Sucateamento do ambiente de trabalho do ilustrador;
- Isolamento entre profissionais;
- Concorrência acirrada e muitas vezes injusta;

Lógico que existem mais pontos, mas esses já podem nos servir de cara.

A primeira coisa a se fazer é ADMITIR essa realidade. Encarar o problema como real e que seja necessário combatê-lo com eficácia para que o problema se extingua e não volte mais. Quando admitimos, admitimos para NÓS, somente importa nós termos consciência dele, e o fato de outras pessoas terem conhecimento ou não de maneira alguma irá influenciar na solução do problema, pois o problema está CONOSCO e somos nós que, com os nossos esforços em modificar a causa do problema naquilo que diz respeito a nós mesmos é que poderemos acabar com o problema, ou fazer com que o problema se agrave, caso continuemos nos comportando com se vivêssemos num mundo cor de rosa.

Isso significa que em épocas de crise e dificuldades para uma determinada profissão ou para um determinado povo, para continuar fazendo parte dessa profissão ou para que o povo continue existindo é preciso ter CORAGEM. Primeiro para admitir conforme já colocamos, depois para encarar os problemas, sempre, até que o problema não exista mais e somente depois disso agir, com paciência e firmeza para que os problemas possam ser resolvidos.

Uma vez que você admita e tenha coragem de encarar o problema, é preciso dentro de cada um de nós sentir que podemos e temos o controle da situação. Na verdade cada um de nós sempre tem controle da situação, seja ela qual for; no entanto, ao acreditarmos não ter o controle permitimos que o problema cresça a ponto de não conseguirmos mais controlá-lo. Nesse momento, se faz necessário resgatarmos a crença em nós mesmos de que somos capazes de retomar o controle da situação. Vejam que eu estou colocando a crença no controle não para achar que já que temos o controle não precisaremos resolver o problema, pois isso é negar o problema que nos levará automaticamente ao ponto inicial de nossa questão.

Ao termos essa clara noção de que podemos ter o controle da situação, devemos então analisarmos sem pressa aonde entramos no meio do problema. Só que não adianta acharmos que somos a vítima, infelizmente o papel de vítima é seriamente questionável, pois sempre permitimos ou pelo menos somos levados por algum sentimento de vantagem ou de facilidade a cair em armadilhas que depois nos criarão problemas. Quando nos vestimos de vítimas, estamos automaticamente admitindo que não temos o controle da situação, pois o problema vem de uma causa externa, maior do que nós mesmos e que independe de nossas atitudes. Em 100% dos casos aonde as pessoas se colocam como vítimas, elas apenas escondem de si mesmas a sua parcela de responsabilidade nos fatos.

À partir da análise séria e realmente imparcial precisamos saber qual foi o nosso papel que nos levou até o cenário de problemas. Foi o papel oportunista? Foi o papel de preguiçoso? Foi o papel de ingênuo? Foi o papel de iludido? Pode até mesmo ter ocorrido uma junção de mais de um papel.

Depois vem o mais difícil da história que é numerar TUDO o que ocorreu de errado, substituir os possíveis erros por práticas que possam nos parecer corretas e agir de acordo com a análise que fizemos. E trabalhar, trabalhar e trabalhar mais ainda, e esperar que com o tempo, os frutos das mudanças possam surgir e também perceber se os frutos não forem bons, precisaremos voltar com a nossa análise e novamente separar os erros e tentar substituí-los por ações que possam ser mais acertadas.

Agindo assim, o resultado virá.

Não adianta achar que isso é uma explicação sem graça, não existe mágica e nem milagre no mundo, o que existe é esforço e paciência.

Algumas pessoas dizem para nós que o resultado positivo em uma empreitada é o trabalho lento, constante, incansável, responsável, paciente, perseverante e tudo mais. Todas essas palavras costumam ser interessantes, mas representam algo muito penoso, demorado, sofrido e, embora a gente siga essas dicas, muitas vezes embalamos sonhos de aparecer alguma oportunidade de ter sucesso de maneira mais rápida, mais fácil ou mais suave.

Uma hora sempre pode aparecer (e aparece) uma oportunidade, muitas vezes aparecem pessoas apresentando para nós o quer podemos pesar que seja um atalho para o sucesso. É quando a gente pensa: agora é a minha vez! Vou dar o golpe de sorte da minha vida! E a oportunidade que geralmente representa o golpe de sorte costuma ser geralmente algo que exige pouco esforço e muito dinheiro, e se tiver fama na parada é melhor ainda. Nós esquecemos que as oportunidades que aparecem em nossa vida são apenas uma porta a mais, só que o trabalho constante, incansável, disciplinado e perseverante vai continuar sendo necessário.

O que costuma acontecer nessas horas? A gente se enche de esperança, mergulha de cabeça no meio rápido, fácil e indolor de se chegar ao sucesso e deixamos de lado aquela semeadura lenta e gradativa. Depois, passa toda essa loucura, que sempre não gera coisa alguma, isso quando não acaba deixando a gente mais endividado e com muitas desilusões no currículo, fazendo com que a gente pense em desistir de tudo de uma vez por todas. E se não bastasse, a gente começa a perceber que aquele trabalhinho lento e gradativo que nós abandonamos foi perdido. E o pior de tudo é que teremos que começar esse trabalhinho lento e gradativo do zero tudo de novo.

Nos iludimos facilmente achando que um dia aparecerá uma oportunidade que irá nos gerar fama e dinheiro com pouco esforço, a gente nem percebe que 100% das pessoas bem sucedidas no mundo são pessoas que trabalham bem mais do que as 40 horas semanais que todo trabalhador com carteira assinada sonha um dia trabalhar. Nenhum empresário fica dormindo até as 11h00 e depois fica até o meio dia assistindo televisão, pára as cinco da tarde para tomar um cafezinho e bate o ponto as seis da tarde e tem tempo pra assistir as novelas nas seis, das sete e das oito.

Nenhum homem bem sucedido fica duas horas por dia lendo jornal e tendo tempo de fazer palavras cruzadas. Nenhum homem de sucesso almoça por duas horas todos os dias. Nenhum homem de sucesso fez curso por quatro anos e nunca mais precisou estudar.

E nós costumamos achar que poderemos ser alguma coisa trabalhando pouco, lentamente e sem estudar...

Sem querer, a gente começa já a perceber aonde residem os problemas. Não somos vítimas, se poderemos nos considerar vítimas, então somos vítimas de nós mesmos.

Qual é a nossa formação?

Quanto tempo por dia estudamos ou treinamos alguma coisa nova que poderá nos fazer ter um trabalho melhor?

Quanto tempo por dia passamos estudando o nosso mercado de atuação?

Quanto tempo por dia passamos estudando nossas falhas no marketing pessoal, nas nossas falhas de infra-estrutura, nas nossas falhas de técnica de desenho ou nas falhas no nosso contato, ou no nosso modo de montarmos um orçamento?

Quanto tempo dispomos para desenvolver produtos novos?

Quanto tempo dispomos para estudar novas opções de soluções para as necessidade e problemas de nossos clientes?

Costumamos analisar as demandas de mercado ao entrarmos em um determinado segmento?

Costumamos estudar se existe algum público com demanda reprimida?
Temos algum programa de treinamento para aprimorar a técnica de nossos trabalhos?

Costumamos fazer planos de mercado com objetivos a curto, médio e longo prazos?

Costumamos traçar estratégias, seja ela de marketing, de formação ou de desenvolvimento?

Costumamos organizar um calendário estratégico analisando as épocas de aumento e diminuição de demanda de mercado para aproveitar as fases de baixa para investimento em nós mesmos?

Então, precisamos ter a humildade de perceber que nós não somos nem um pouco capazes de sermos bem sucedidos se a resposta foi não para mais de três das perguntas anteriores.

Aí, será que teremos a cara de pau de continuar afirmando que a culpa é dos novos profissionais que vendem seu trabalho a preço de banana, ou de clientes que pagam pouco e nos impõem contratos leoninos?

O mercado age conosco da maneira como agimos com ele. As empresas e clientes não nos respeitam porque nós não nos respeitamos. Eles não nos valorizam porque nós não nos valorizamos. Eles não nos reconhecem como profissionais porque nós não nos reconhecemos como profissionais.

Vamos olhar para outras profissões, médico, advogado, engenheiro, programador, empreiteiro, vendedor, jornalista. Todos eles agem de maneira semelhante para serem bem sucedidos. Nós costumamos nos achar os tais, trabalhamos a hora que queremos e quando alguém questiona a qualidade de um trabalho nosso a gente diz que a arte não se questiona, que o valor de nosso trabalho está intrinsecamente contido nele mesmo, seja lá o que isso possa significar; e achamos que todo mundo cai na nossa lábia.

Quando eu estava começando, era apenas um assistente de arte aspirante a ilustrador, uma vez ouvi vários diretores de arte e redatores tentando me convencer a não ser ilustrador. Eles diziam que os ilustradores eram pessoas inúteis e insuportáveis. Pessoas fora da realidade, de intelecto e visão reduzidas, sem cultura, metidos a especialistas e que todo mundo somente aturava esse pessoal, mas ninguém caía no xaveco furado dos ilustradores porque os ilustradores na verdade só sabiam fazer direito era falar de futebol e tomar cerveja no bar.

Eu me lembro muito bem que eu fiquei com uma raiva tremenda desse pessoal na época, fiquei revoltado com isso e por um bom tempo alimentei uma rebeldia feroz querendo provar que isso tudo era mentira.

Hoje eu vejo que, embora alguns comentários fossem de extremo mau gosto e maldade, existia muita verdade nas coisas que esses diretores de arte me falaram a quase vinte anos atrás.

O que me deixa mais abismado nessa história toda é que essa visão pode ser ainda a mesma que muitos de nosso clientes tem de nós atualmente, isso se eles não tiverem uma visão mais negativa.

Será que a visão deles é distorcida? Será que ninguém tem razão? Será que o mundo é feito apenas de clientes malvados que ninguém consegue ver que ilustração vende?

Será que ilustração vende?

Quando uma ilustração vende?

A cada dia que passa eu vejo quanto precisamos caminhar e quanto somos responsáveis pelos problemas que existem em nosso mercado.

Somos vítimas de nossas imperfeições.